Os domingos são iguais em qualquer lugar do mundo. Os demais dias passam, cada um à própria maneira. O domingo à tarde, especialmente à tarde, é o único e solitário canto da Terra onde a tristeza adquire formas só entendidas, talvez, pelos deuses do humor.
Em Trafalgar Square, em Londres, ou na avenida dos Campos Elísios, em Paris, ou no coreto do jardim do Parque Moscoso, se é domingo, é triste. É como se a cidade lenta e delicadamente se impregnasse de vazio. Mesmo que não houvesse nada a reclamar deste vasto mundo, uma certa melancolia comparece dominicalmente. Até porque esta falta é da ordem do sentimento e da paixão.
Só o mercado, o velho mercado, pode salvar o domingo do nada.
Carece antes de mais nada, apurar o olfato. Ai do mercado que não esteja pleno de cheiros. O nariz é a nossa mais inflamável bússola. Permite-nos navegar, por exemplo, por entre montes de badejos, cebolinhas, coentros, salsas, cebolas, tomates, costelas, pernis… Sem nos confundir.
São infinitos os cheiros para cada coisa cheirosa. Jamais terão o mesmo sabor ao olfato, por exemplo, duas aparentemente idênticas e inocentes folhinhas de hortelã. Uma folha de hortelã, como as demais folhas, não se repete.
Sei de mercados. Ando por eles de priscas eras.
Se alguém me pergunta onde fica o coração do desejo de Vitória, não tenho dúvidas.
- Fica na Vila Rubim, perto da rodoviária, de quem vai.
É só bater um domingo mais ou menos e lá vou eu para o mercado da Vila cheirar. E ouvir. Porque, creiam-me, a audição é o segundo sentido mais importante no festival de prazer dos mercados. Todos falam, todos gritam, todos riem e fazem toda a forma própria de murmúrio coletivo, afinadíssimo como são afinados todos os coros populares.
A gente não compreende nada, mas entende tudo. É que o mercado – quero segredar-lhes isso para que guardem com muito apreço - tem uma língua própria, cheia de humor e equidade. É o esperanto da alma.
Deve-se ir também ao ritual sagrado da mistura das mãos. Procure uma banca, norteado pelo cheiro, naturalmente, e abstraia-se. Ou melhor, concentre-se apenas nas mãos das pessoas tentando pegar, por exemplo, boas laranjas. Aí é onde toda a vaidade do mundo se esvai. Traçam-se dedos com anéis de ouro com mãos calejadas e recém-saídas de enxadas ou pás de pedreiro. Talvez este seja o último lugar da confraternização universal.
A visão também é contemplada. Vem juntar-se ao cheiro e à escuta. No mercado estão reunidas todas, absolutamente todas as cores, e todas as tonalidades, sem faltar nenhuma. Os verdes que saem das alfaces e couves me inundam os olhos. Hoje em dia posso distinguir centenas de tons de verde, após esses anos de formação na Vila Rubim, apesar da vista que teima em me enganar. Os pescados, especialmente em meses que tem R (que são meses de caranguejo), despertam de um tudo. De quebra, antecipam o paladar. Jamais vi uma pescada fresca, um badejo ou um simples peroá que não me trouxesse o desejo de comê-los crus, ali mesmo. Comer, não como não. Chego perto, e praticamente enfio o nariz guelras adentro deste objeto de arte e sabor.
É que o paladar aqui adquire formas únicas de gozo. Apurados os sentidos vamos ao tato. Por mais que tentem esconder, a principal razão que leva uma pessoa ao mercado é enfiar o dedo nas coisas. Não para aferir ingenuamente a qualidade do produto – vocês a mim não enganam -, mas pelo infinito prazer de apalpar e sentir corpo adentro a indescritível mistura de sentidos. Promover o pegar, cheirar, olhar e sentir, eis a finalidade secreta do mercado. Reúne o mais instintivo das pessoas em um pátio de aromas e produz-se um mercado.
Mesmo na mais chuvosa tarde de domingo, quando os mendigos sofrem do mesmo sofrimento que os milionários, a vida concentra-se no mercado. Estes, como já foram os templos, os castelos e as fortalezas, é o derradeiro refúgio dos sentidos. Se não pela função de alimentar-nos, pelos menos de vermos nos outros e em nós mesmo o âmago do coração que só aparece quando tocamos com delicada convicção as folhas entrelaçadas de um maço de agrião, por assim dizer...
Não terá sido à toa que, apenas pela apressada tecnologia, os mercados impõem por sobre as instituições o mesmo formato de sempre, a mesma forma ou, melhor dizendo, o mesmo jeito com que surgiu sabe-se lá há quanto tempo. São iguais na essência e facilmente reconhecidos em todos os cantões da Terra.
Todos, portanto, à Vila Rubim. Domingo que vem continua a troca. A gente cria o mercado e o mercado cria a gente.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está de olho em uma pescadinha.