O consumidor de produtos agrícolas que vive na correria da Grande Vitória e sofre com o pó preto, todo o tipo de poluentes e racionamento de água, e ouve dizer o tempo todo que a crise hídrica se avizinha. Este indivíduo urbano, morador das nossas cidades, sabe desde cedo, por ouvir falar e por tradição da família - muitas vieram do interior -, que “se o campo não planta a cidade não janta.”
Para eles o agricultor é uma espécie de arauto de uma vida saudável. E mais ainda, espera que o agricultor seja um produtor de águas, consciente, um valente e preparado guerreiro para nos ofertar o que tem de melhor. Ele precisa deste produtor rural para fazer sua defesa de permanecer na cidade. Além disso, ele quer que este agricultor mantenha a salvo as nascentes, para este tempo e as futuras gerações.
Esta nova identidade entre o consumidor urbano, na busca de produtos que ofertam garantia de qualidade de vida, saúde, bem-estar, e o produtor, de agricultura familiar, que se apresenta como fornecedor de produtos mais naturais e saudáveis, surge como um novo pacto social, mais necessário ainda em nossos tempos de pandemia, e que precisa receber mais apoio de nossos governos locais.
Apesar de este produtor resistir e buscar outros caminhos, a realidade da agricultura brasileira é difícil para quem é pequeno. O produtor familiar é empurrado para um lugar social de negação e não reconhecimento. Nesta condição, se vê obrigado a trabalhar duro para alcançar as condições mínimas para sua manutenção e sobrevivência na área rural, o que o faz cada vez mais pobre e dependente.
Com perdas, muitos sofrem para se adequar ao projeto de modernização (mortes por uso de agrotóxico, dívidas decorrentes de empréstimos etc). No entanto, o agricultor sobrevivente não é um personagem passivo, sem resistência diante da força do grande negócio agrícola. Ele constrói sua própria história, mesmo com dificuldades, e busca se adaptar aos novos desafios do desenvolvimento rural.
Estes agricultores que ainda acreditam na mudança, investem em um novo modo de fazer agricultura e para isso se especializam e se tornam competentes e profissionais para produzir, sem perder suas raízes. Detêm um saber técnico e cumulativo das gerações anteriores do conhecimento da terra e de como fazer atividade agrícola. Conhecem de modo detalhado a terra, as plantas e os animais.
A maioria é comprometida, defende a preservação da natureza e nutre um afeto especial pela terra e amor a profissão. Espera-se muito deles, mas afinal o que está sendo feito para apoiar e favorecer o agricultor familiar no Espírito Santo? Eles buscam autonomia, independência e condições financeiras e matérias para se manterem e sobreviverem no campo. E isso implica investimento em políticas públicas para o setor da agricultura familiar.
É preciso avançar muito ainda, mas os circuitos curtos (encontros entre consumidores e produtores) em forma de feiras é uma forma de resistência que está dando certo. A relação entre feirantes e consumidores vai além da compra e venda. Eles mantêm contatos pessoais e de confiança. As feiras promovem autonomia, valorização da produção e cultura local e diminuição de custos com atravessadores, por exemplo. Elas são uma forma de produção e ação, baseada na inovação, cooperação e autonomia entre sujeitos produtores e consumidores.
As feiras orgânicas acontecem em praças e em alguns shoppings da Grande Vitória, e as não orgânicas, mas com produtos diretos do produtor, há em alguns bairros de Viana. Apoiar a extensão das feiras para mais bairros da Grande Vitória, incentivar e dar suporte para que as associações de produtores se fortaleçam e se tornem ativas e financiar o pequeno produtor, para que possa se constituir como polo de manutenção da pequena propriedade e ao mesmo tempo fornecedor de produtos frescos e saudáveis para a Grande Vitória, é o que se espera do gestor público.