Num tempo árido como agora, não é fácil saber o que escrever. Mas a orientação vem de um mestre, o “poetinha” Vinicius de Moraes, sobre o que falar em tempos de crise. Num texto intitulado "O exercício da crônica", de 1953, ele diz que num mundo doente a lutar pela saúde, quem escreve não pode também ser um doente.” E finaliza que insistir nessa prática “é um crime tão grande quanto o de se vender, em época de epidemia, um antibiótico adulterado.” Nada mais atual.
Nestes tempos extraordinários, a mudança é uma constante. A incerteza é a única que paira à frente. A fé se torna um guia necessário para avançar e dar passos na construção de novos projetos de vida. E foi Gramsci, nas muitas cartas da prisão, que usou a expressão "interregnum", hiato de tempo entre a morte de um rei e a entronização de seu sucessor, para falar destes tempos difíceis.
Para ele este é um tempo em que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”. É a crise. Nela que surge uma grande variedade de “sintomas mórbidos”, líderes populistas, salvadores da pátria e negacionistas. Muitos desses dizem e fazem coisas que trazem mais dúvidas do que certeza. É como se todos vivessem, dia após dia, sobre um grande monte de gelo, mas sem conseguir matar a sede.
Mas é no embalo de Vinicius que é preciso seguir em frente e festejar, afinal temos um grande motivo: é semana do Natal. Data mais importante para os cristãos e o mundo. Trata-se do aniversário de Jesus, o Cristo, que nasceu pobre numa manjedoura, e com sua trajetória de vida deixou a todos uma grande riqueza. O mandamento do amor: “amai a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo”. Da morte de cruz, pena capital imposta pelas autoridades, ressuscitou ao terceiro dia, para salvação de todos. Com ele, a vida venceu a morte.
Este tempo é um convite para alimentar a fé, passada de geração em geração. O Natal é como um oásis no deserto escaldante de 2020. E por mais que muitos capixabas tenham motivos para chorar as 4.759 mortes e o sofrimento de muitos dos 228.741 infectados, é hora de parar.
Mesmo em plena pandemia, é preciso brindar e celebrar a vida. É preciso descansar, rever hábitos e comportamentos. Recuperar as energias e revigorar o espírito para seguir em frente. Festejar, rir, rever amigos e parentes. Claro, com todo o cuidado necessário para evitar mais contaminações. Enfim, é necessário curar o coração e deixar a beleza dos instantes contagiar de alegria os nossos dias de vida. Boas Festas e um Feliz e Santo Natal a todos!