Do governo federal não existe surpresa, todos sabem como ele conduz a política de cultura no país. Com a posse de Bolsonaro, o ministério foi extinto de vez e virou uma secretaria especial do Ministério da Cidadania. A descontinuidade das políticas públicas, a instabilidade institucional e o corte de verbas não foram os únicos métodos usados pelo governo para atingir a área da cultura.
De um governo com viés autoritário e fascista se pode esperar tudo. A história recente mostra que quanto mais autoritário o regime, maior sua preocupação em conter obras, patrimônios, instituições e artistas que podem afrontar seu modelo político de poder. Mas por que o Carmélia? A quem interessa o fim do Teatro Carmélia?
"Será que se o Carmélia estivesse ativo, reformado e em bom estado de funcionamento, a União pediria o espaço? O que a Prefeitura de Vitória fez nos últimos anos para que isso não chegasse ate aqui? Qual a parcela de responsabilidade da gestão atual no abandono e descaso do Carmélia e a consequente tentativa da União de transformá-lo em um depósito de sacos?"
Carmélia, mulher, escritora do povo, jornalista, negra e defensora da Ilha de Vitória. Seu nome foi elevado as glórias, teve sua arte reconhecida. Um prédio passa a ser o símbolo desta que contou detalhes esquecidos da vida. Disse muito da identidade capixaba. No palco, muitos estiveram, e Carmélia renasceu na arte, dança, música e no teatro. Esta linda história deveria apontar para um final feliz. Mas o abandono, o descaso e a falta de prioridade com o patrimônio e a memória de um povo mostram quanto o poder público, nos últimos anos, não priorizou a cultura em seus orçamentos.
O Teatro Carmélia se tornou parte eternizada da memória capixaba. Este espaço diverso, múltiplo e acolhedor da vida em suas diversas formas de manifestação artístico-cultural, uma vez abandonado, agora está para ser usado como depósito do governo federal. Será que se o Carmélia estivesse ativo, reformado e em bom estado de funcionamento, a União pediria o espaço? O que a Prefeitura de Vitória fez nos últimos anos para que isso não chegasse ate aqui? Qual a parcela de responsabilidade da gestão atual no abandono e descaso do Carmélia e a consequente tentativa da União de transformá-lo em um depósito de sacos?
A morte de um ícone da cultura é o sepultamento da identidade e do sentido de pertencimento de um povo a seu lugar. O que está posto, neste modelo de política, é um nivelamento e redução da vida de um povo a um modelo único de poder e domínio. Os que orquestram esta política perversa de destruição da cultura são os mesmos que deixaram nossos cinemas virarem igrejas e nada fizeram. O abandono do Carmélia é parte da política de descaso com o centro de Vitória, que favorece a especulação imobiliária de uma elite endinheirada e descomprometida com a cidade. É esta mesma política que deixa os corpos abandonados no chão, no frio, sujeitos ao fogo fascista e assassínio que o alimenta.
Um grito de basta. Um ato em defesa da cultura e do Teatro Carmélia está nas redes sociais. Hoje, ganhará as ruas com manifestações dos setores artísticos e toda sociedade capixaba. É hora de resistir e defender o que marca a vida, a memória e a história, a fronteira material e imaterial, a alma do povo capixaba, com suas formas de ser, pensar e agir.
É preciso defender a cultura! Por que esperar sem agir se o que está posto é o rebaixamento da importância da cultura enquanto política pública? Eis convite do BrCidades: “Vamos todos! Moradora, morador da região, de bairros vizinhos, cidadã e cidadãos capixabas, juntem-se a nós, esse espaço é nosso! A cultura resiste! O Carmélia revive!”.