Janeiro, mês que significa início. Vem de Janus, o deus romano de duas faces. Uma que olha pra frente, o futuro. E outra que olha para trás, o passado. Era o guardião das chaves do templo, senhor dos começos e fins. Neste mês nada ainda está dado. O que temos hoje e resultado de ontem. Deveria ser o mês para fazer uma pausa e refletir, porque, como diz o ditado, “o ano só começa depois do carnaval”. Mas pelo visto, este vai ser bem diferente.
E a primeira segunda-feira já começou bem agitada para os capixabas! A paralisação dos ônibus na Grande Vitória revela o que poucos querem enxergar. São pais de família, trabalhadores, homens e mulheres, estes cobradores, só querem uma resposta sobre o que vai acontecer daqui pra frente. Não querem ficar em casa, com os benefícios pagos pelo governo. Eles defendem o trabalho. Querem ganhar o sustento com o suor do seu próprio rosto.
Quão indigno é aceitar que estes “batalhadores” tenham o direito a um salário? Quem está negando a estes o sagrado direito a ter o mínimo para cuidar de seus familiares? Em plena crise, em que o desemprego extrapola os limites do razoável e vara o teto do aceitável, seria no mínimo prudente ter uma proposta para estes profissionais.
No entanto, essa ação de paralisação, patrocinada pelo sindicato dos rodoviários, como estratégia para manter os cobradores nos ônibus, foi o último suspiro destes batalhadores que não sabem para onde ir. O seu gesto, uma espécie de ludismo – movimento que se opôs à industrialização ou às novas tecnologias - soa como um grito agonizante de socorro para manter uma profissão que não existe mais.
Nos pontos de ônibus e terminais cheios, a população se aglomerou aos montes nas filas intermináveis. De todo lado o que se ouvia era reclamação sobre o caos gerado pela paralisação. Alguns a favor dos cobradores e outros, totalmente contra.
Se a paralisação é considerada abusiva, por que ônibus cheio, todos os dias, em plena pandemia, não pode ser considerado aglomeração e, portanto, abuso com a vida de todos os capixabas que moram na periferia? Sem contar o número reduzido e a falta constante de ônibus aos domingos, quando o morador da periferia precisa do ônibus e não o encontra.
Demitir cobradores e deixar toda responsabilidade para os motoristas não seria também uma prática abusiva? Atrasos e longas filas no cotidiano dos terminais com aglomeração todos os dias não é abuso com o trabalhador? Muitos usuários do sistema Transcol se perguntaram, no dia de ontem, sobre o que de fato pode ser considerado abuso com a população capixaba: a paralisação ou o sistema que não funciona para atender bem e a todos? De uma coisa temos certeza, disse uma senhora: “A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco.”
Em meio à paralisação, o governo anunciou que não é para demitir os cobradores. Bom sinal! Mas não tem pra onde correr. É sabido que as alterações nos ônibus, com acesso a novas tecnologias, é uma constante e veio para ficar. Está assim em várias cidades do país e do mundo. Em pouco tempo, diversas profissões se tornaram ultrapassadas. Esse movimento não tem volta. Que venham as mudanças para o bem de todos. Mas que seja acima de tudo com dignidade, respeito e iniciativas de politicas públicas, para manter no mercado de trabalho aqueles que vão perder o seu emprego.