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Crítica

"Alice in Borderland", da Netflix, segue ótima em 2ª temporada

Série japonesa da Netflix traz violentos jogos mortais, bons personagens e uma pegada cinematográfica para expandir o universo previamente criado

Publicado em 23 de Dezembro de 2022 às 02:06

Públicado em 

23 dez 2022 às 02:06
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Série japonesa
Série japonesa "Alice in Borderland", da Netflix Crédito: Kumiko Tsuchiya/Netflix
Lançada há dois anos, em dezembro de 2020, a série japonesa “Alice in Borderland” misturava influências ocidentais à cultura japonesa em um battle royale distópico no qual tudo podia acontecer aos personagens. Em oito episódios, a série adaptava o mangá homônimo de Haro Aso em uma violenta aventura de ficção científica que chegava a uma boa conclusão, oferecendo possibilidades de expandir o universo, mas para onde seguir?
A segunda temporada de “Alice in Borderland” traz oito novos episódios que continuam a insana jornada de jogos mortais de Arisu (Kento Yamazaki), Usagi (Tao Tsuchiya), Chishiya (Nijiro Murakami) e diversos outros jogadores em busca de uma saída daquele mundo. O grande tema da temporada é a possibilidade de retornarem ao mundo “real”, de vencer todos os jogos, completar o “baralho”; para isso, eles precisam agora vencer os reis de diferentes naipes, os chefões, que podem ou não ser apenas jogadores antigos que venceram todos os desafios e se estabeleceram naquele mundo como “cidadãos”, sem nunca conseguir sair de lá.
O episódio inicial é ótimo e já apresenta o grande chefão de forma impactante. O roteiro opta por separar os grupos, oferecendo mais possibilidades de exploração de novos jogos. É muito boa a escolha narrativa do diretor Shinsuke Sato (“Kingdom”), que comanda todos os episódios, de não necessariamente introduzir um jogo e encerrá-lo ao fim do episódios - ao expandir seus arcos e às vezes deixar uma resolução para a metade do episódio seguinte, a série torna difícil não clicar no botão de “próximo episódio”.
“Alice in Borderland” apresenta novos personagens e traz de volta alguns da primeira temporada que talvez julgássemos mortos. Essas figuras servem tanto para buscar uma nova identificação quanto para que a rotina de mortes siga impactando a narrativa sem que seja necessário eliminar, de cara, Arisu e sua turma.
Série japonesa
Série japonesa "Alice in Borderland", da Netflix Crédito: Kumiko Tsuchiya/Netflix
Ainda, ao separar o núcleo formado no final da primeira temporada, a série oferece frescor e um respiro para cada um dos personagens, nunca tornando-os enfadonhos ou repetitivos. Esse recurso também funciona para que a série explore jogos diferentes, alguns mais cerebrais, outros mais voltado para ação. Nesse formato, o texto oferece muito espaço para Chishiya (Nijirô Murakami), que protagoniza alguns dos jogos mais complexos da temporada, e torna o personagem mais interessante, mais próximo do público.
Uma das melhores características de “Alice in Borderland” é entender que ser uma fantasia de entretenimento não necessariamente tira dela o peso da narrativa. Assim, os personagens sofrem, lidam com luto e as incertezas daquele mundo; as mortes são sentidas, são pesadas e dolorosas também para o espectador, como se toda aquela fantasia fosse real. Esse aspecto é reforçado pelos flashbacks das vidas posteriores dos personagens, seus vínculos e suas escolhas; o jogo pode oferecer a eles um escape, uma motivação na vida ou uma redenção. Todos na série jogam por algo além da sobrevivência e aparentemente estão ali por um motivo.
Série japonesa
Série japonesa "Alice in Borderland", da Netflix Crédito: Kumiko Tsuchiya/Netflix
O “problema” da série (atenção às aspas) é sua falta de respostas, é buscar crescer o mistério sem resolver os já apresentados. É quase irônico que uma narrativa com texto tão didático e que oferece tantas explicações irrelevantes, esconda do espectador revelações daquele mundo. Há, claro, uma descoberta aqui, um vídeo perdido acolá, mas é só no oitavo episódio que algumas questões são respondidas, talvez por medo de um cancelamento da série sem um final ao menos digno, o que é sempre um risco quando falamos de Netflix, mas ainda deixando espaço para uma possível terceira leva de episódios a partir da última cena.
As cenas de uma Tóquio vazia e destruída sempre impressionam e dão à série um aspecto cinematográfico difícil de ser alcançado nas produções para streaming e também conferem à narrativa um aspecto de sonho, etéreo, que nos leva de volta à essência da história, o buraco do coelho, o País das Maravilhas em que as coisas talvez não façam tanto sentido. É interessante notar também a já citada mescla de influências ocidentais a uma cultura japonesa mais conservadora, que se choca com a nudez e passa o episódio inteiro buscando o incômodo com isso.
Série japonesa
Série japonesa "Alice in Borderland", da Netflix Crédito: Kumiko Tsuchiya/Netflix
Apesar de problemas com ritmo, principalmente a partir no quinto e no sexto episódios, “Alice in Borderland” continua ambiciosa e ainda mais grandiosa. A produção é ótima, com trilha sonora orquestrada, excelentes sequências de ação e um texto é inteligente mesmo quando abusa do didatismo. O final da temporada (quiçá da série) não agradará todos, mas também não é ruim. De qualquer forma, o que importa é o que aconteceu até ali, e Shinsuke Sato entrega uma baita jornada.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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