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Crítica

"Certas Pessoas": Comédia romântica da Netflix aposta no constrangimento

Com Jonah Hill, Eddie Murphy e Julia Louie-Dreyfus no elenco, "Certas Pessoas" faz piadas com diferenças étnicas e religiosas de um casal e seus familiares

Publicado em 30 de Janeiro de 2023 às 21:36

Públicado em 

30 jan 2023 às 21:36
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme
Em "Certas Pessoas", um judeu branco se apaixona por uma muçulmana negra e tudo se transforma em um conflito de famílias Crédito: Parrish Lewis/Netflix
“Certas Pessoas”, da Netflix, é um filme cheio de boas intenções. Dirigido por Kenya Barris, criados das ótimas “Black-ish” e “#BlackAF”, e coescrito por Barris e Jonah Hill, o filme é praticamente um remake do clássico “Adivinhe Quem Vem Para o Jantar” (1967), de Stanley Kramer, que atualiza o contexto e a dinâmica racial para mais de meio século depois como uma comédia romântica que se esforça para ser esperta, mas nem sempre consegue.
O filme lançado pela Netflix acompanha Ezra Cohen (Jonah Hill), um judeu branco que se apaixona por Amira Mohammed (Lauren London), uma negra muçulmana. Assistimos ao inusitado primeiro encontro deles e a conexão com o espectador é imediata, pois há carisma em ambos. O filme dá um salto temporal e os encontramos com uma relação já estabelecida e funcionando muito bem, o problema é que nenhum dos dois ainda conhece a família do outro.
A família de Ezra é bem-sucedida e supostamente progressista. Ele tem uma irmã LGBTQIA+ e pais que se esforçam para serem bem vistos por todos, mas que não sabem sequer como agir quando o filho aparece com uma mulher negra. Em contrapartida, a família de Amira é construída como o clichê do militante negro; seu pai, Akbar (Eddie Murphy), se leva a sério demais e se comporta como se fosse Malcolm X, mas sem o menor respeito pelas crenças de outras pessoas.
“Certas Pessoas” se sustenta nessas diferenças e em conflitos geracionais. Mesmo crescendo em um lar judeu, Ezra é fruto da época e do meio - ele ama rap, moda de rua e se veste como jogador de basquete. Além disso, tem um podcast sobre cultura ao lado da melhor amiga, Mo (Sam Jay), e se considera um conhecedor da cultura negra. Já Amira faz graça com a militância de seu pai, mas tem plena ciência da luta histórica por direitos civis. O problema não são eles, mas os pais.
Filme
Em "Certas Pessoas", um judeu branco se apaixona por uma muçulmana negra e tudo se transforma em um conflito de famílias Crédito: Parrish Lewis/Netflix
O texto de Barris e Hill tem ótimas piadas e algumas boas sacadas, mas parece ser composto mais por ideias do que por uma linha narrativa. Assim, na ânsia de encaixar todas essas ideias, o filme se torna repetitivo e até cansativo, sem oferecer ao público um respiro daquele constrangimento. Durante seu segundo ato, “Certas Pessoas” encadeia cenas que seguem a mesma premissa: Ezra ou Amira tentando se encaixar um na família do outro.
Um grande mérito do filme de Kenya Barris, no entanto, é entender os atores e atrizes que tem em mãos. Julia Louis-Dreyfus é mestre em vergonha alheia desde os tempos de “Seinfeld” e constrange desde sua primeira aparição como Shelley, mãe de Ezra. Seu jeito mais expansivo, desesperado para pertencer e agradar, contrasta com o tranquilão Arnold (David Duchovny), seu marido, que só tenta pagar de descolado com uma piada que funciona justamente pela repetição. Do outro lado, o Akbar de Eddie Murphy é sempre contido e intimidador. No meio de tudo, Jonah HIll e Lauren London funcionam bem como um carismático casal, mas o roteiro parece pouco se interessar por eles após o primeiro ato.
Filme
Em "Certas Pessoas", um judeu branco se apaixona por uma muçulmana negra e tudo se transforma em um conflito de famílias Crédito: Parrish Lewis/Netflix
A falta de ritmo de “Certas Pessoas” mostra a inexperiência de Kenya Barris na direção. Muitas piadas e situações, se analisadas isoladamente, funcionariam muito bem, mas, do jeito como o filme foi montado e construído, elas se tornam apenas uma variação do que já foi visto minutos antes e do que será visto um pouco mais adiante.
Ao fim, cheio de boas intenções, garantindo algumas boas risadas e com uma mensagem bonita, “Certas Pessoas” até diverte, mas abusa das caricaturas que talvez funcionassem em uma série de episódios curtos, com humor baseado na expectativa justamente de vermos aquelas situações sendo repetidas. Em um filme, com narrativa enxuta e muitos personagens, há pouco desenvolvimento e, com isso, pouca empatia, fazendo com que o espectador até ria, mas nunca se envolva.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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