Em “Glass Onion: Um História Knives Out”, Rian Johnson alcança algo improvável, realizar um filme tão bom quanto o original (talvez até melhor) sem se repetir ou se ater ao que deu certo em “Entre Facas e Segredos” (2019), que chegou até a ser indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2020. Há, é claro, a premissa, um assassinato, o “whodunit” e Benoit Blanc (Daniel Craig), o “melhor detetive do mundo”.
“Glass Onion”, lançado e produzido pela Netflix, se passa em maio de 2020, ou seja, durante momentos tensos da pandemia, e usa isso em seu roteiro. Entediado, Benoit Blanc joga “Among Us” com celebridades aleatórias como Natasha Lyonne, Stephen Sondheim, Kareem Abdul-Jabbar e Angela Lansbury - era de se esperar que ele fosse ótimo no jogo, mas não é bem isso que acontece.
O filme também introduzi rapidamente, mas de maneira bem eficaz, a turma da vez: a política Claire (Kathryn Hahn), dando entrevista da sala de casa enquanto crianças correm pelo cômodo; a fashionista Birdie (Kate Hudson), dando festas em meio ao isolamento; o influencer armamentista e conspiracionista Duke (Dave Bautista); e o cientista Lionel (Leslie Odom Jr.). Em comum, todos são amigos há anos e têm ligação com o bilionário MIles Bron (Edward Norton), uma espécie de Elon Musk menos mala (e olha que o personagem é bem mala).
Por isso, quando todos recebem uma caixa misteriosa cheia de enigmas, não conseguem esconder a empolgação. Blanc também recebe uma caixa, assim como Andi (Janelle Monáe), uma personagem cujo vínculo com Bron o texto só apresenta adiante. Há ainda Whiskey (Madelyn Cline), namorada de Duke, e Peg (Jessica Henwick), assistente de Birdie, que acompanham seus pares à ilha onde Miles Bron pensou em um jogo de detetive para descobrir o culpado por sua “morte”. Seria tudo uma brincadeira, um passatempo de um bilionário com tempo livre, mas as coisas mudam quando uma morte realmente acontece.
O grande mérito de “Glass Onion” é o impecável texto cheio de referências, piadas e situações absurdas tratadas com seriedade. O filme ganha relevância ao abordar temas atuais tanto como críticas sociais quanto como piadas - e muitas vezes como os dois. Miles se sente intocável, protegido por seu dinheiro, e não tem a menor noção da realidade. Em flashbacks, o roteiro nos mostra de onde os personagens se conhecem e também alguns acontecimentos que influenciam no crime e ajudam o público ao montar o quebra-cabeças.
O filme busca a identificação do público com críticas aos bilionários “excêntricos” e até mesmo ao ridicularizar a economia que permite a simples existência dessas pessoas vivendo em uma realidade paralela. A crítica aos bilionários parece estar na moda justamente no momento em que muitos deles querem ser notados, basta ver, por exemplo, as ótimas “The White Lotus” e “Succession”. Apesar do discurso, “Glass Onion” nunca é panfletário, com um texto perfeitamente equilibrado por Rian Johnson, que tem plena ciência de estar no comando de uma obra de puro entretenimento.
A inspiração mais óbvia é de “O Fim de Sheila” (1973), de Herbert Ross, e escrito pelo já citado Stephen Sondheim, mas Johnson traz tudo para os problemas atuais. Ao contrário do filme de 2019, o lançamento da Netflix não traz grandes reviravoltas, mas compensa com um texto bem escrito. O roteiro de “Glass Onion” faz tudo se encaixar diante dos olhares do espectador e não traz nenhuma informação gratuita.
É inevitável, também, elogiar o trabalho de casting. Daniel Craig é ótimo e se mostra ainda mais confortável como Benoit Blanc, mas o resto do elenco também é impecável. Edward Norton assume a postura de arrogância disfarçada da simpatia de um sujeito que finge normalidade ao falar do absurdo, que inventa palavras que não existem e que chama todos de “disruptores”, talvez uma das maiores falácias da narrativa coach (sua roupa do flashback é idêntica à de Tom Cruise em “Magnólia”). Janella Monaé é quem rouba a cena e se torna a representante do espectador na narrativa, mas não vou entrar em detalhes da personagem. Kate Hudson e Dave Bautista funcionam justamente pelo absurdo de seus personagens, quase alívios cômicos, enquanto o Lionel de Leslie Odom Jr. e a Claie de Kathryn Hahn deveriam ser a voz da razão, um cientista e uma candidata progressista ao Senado. A questão é que nenhum personagem de “Glass Onion” é unidimensional - as camadas da “cebola” do título já entregam isso.
Até por ser um filme pandêmico dentro e fora das telas, “Glass Onion” não vai muito além da ilha e de alguns flashbacks em que há poucos outros atores. As participações especiais são boas e até acrescentam ao cânone (já dá pra falar de cânone de “Knives Out”?), principalmente a de Hugh Grant, mas o filme também dá espaço para Ethan Hawke (que estava filmando “Moon Knight” bem perto) e para a ótima Jackie Hoffman, que quase não aparece, mas tem uma ótima sequência.
“Glass Onion: Um Mistério Knives Out” é ótimo, um filme divertido, atento à realidade e muito, mas muito bem escrito. É ótimo como ele pega o espectador de surpresa em vários momentos e logo depois explica que essa “surpresa” estava diante de nossos olhos, mas fomos induzidos a olhar para outra coisa. O filme busca o absurdo e a estupidez dos bilionários “excêntricos” e seus discursos de “disruptura”, fingindo levá-los a sério, mas sempre a uma cena de torná-los ridículos (como são). Mesmo se passando em uma ilha, o filme tem ambientação impecável justamente brincando com os já citados absurdos. Ainda, ele busca se conectar com o público de maneira simples, lidando com a pandemia como parte integrante da trama e com personagens plausíveis. Com um terceiro filme já encaminhado, “Knives Out” provavelmente se tornará uma das franquias mais interessantes do cinema atual.