Uma ideia simples, mas com uma execução boa, muitas vezes garante um bom filme. “Feliz Ano Nosso”, filme francês lançado nesta quarta (28) pela Netflix, é exatamente isso: no dia 31 de dezembro, dois desconhecidos ficam presos no elevador enquanto vão para diferentes festas. Sozinhos, com tempo livre e à espera de um resgate, eles trocam confissões e passam a se conhecer melhor.
Em menos de uma hora de filme, “Feliz Ano Nosso” apresenta e desenvolve seus dois personagens. O filme tem início com Gaël (Kev Adams) correndo pela rua, vestido de dinossauro, para não se atrasar para a festa em que sua namorada está. Ao chegar no local, entra no elevador um pouco antes de Hannah (Camille Lellouche) fazer mesmo enquanto briga com alguém ao telefone.
Gaël é “folgado”, tem resposta para tudo e comentários nem sempre muito inteligentes, já Hannah é tem uma carcaça brava. Ele é um aspirante a comediante não muito promissor e ela, uma líder implacável com um comportamento um tanto tóxico diante da equipe. Enquanto eles se abrem, a porta do elevador “se abre” para o mundo externo, para que o outro presencie a história contada, um recurso muito eficiente, pois amplia o universo do filme e quebra um pouco a dinâmica estabelecida. Ainda,
Dirigido pelo novato Frank Bellocq, “Feliz Ano Nosso” aposta em um certo exagero para conseguir desenvolver dois personagens em tão pouco tempo. A escolha do texto por histórias contadas ao invés de flashbacks possibilita esse exagero, afinal, uma história bem contada normalmente tem algum exagero. Há algumas forçadas de barra que não fazem tanto sentido, como algumas coisas ouvidas por eles de dentro do elevador, mas nada compromete, principalmente se levarmos em conta o pouco tempo que Bellocq tem para contar a história.
Gradualmente, passamos a compreender os dilemas de Gaël e Hannah - ambos construíram disfarces para esconder alguma fragilidade e se esconderam dentro dessa nova persona; agora, se enxergam no outro o suficiente para abrir mão desse recurso e para entender quem realmente são. Mais do que uma história do encontro de um possível casal, quase uma comédia romântica dentro de um elevador, “Feliz Ano Nosso” é uma jornada de autoconhecimento, de se enxergar no outro e, assim, se admirar.
“Feliz Ano Nosso” é um filme simples e talvez passe bem despercebido, mas é ótimo à maneira que trata de alguns temas pesados de maneira leve, lidando com traumas, medo e culpa em um texto divertido que funciona quase como um especial de fim de ano. O filme é uma história sensível, delicada e engraçada que coloca um sorriso no rosto do espectador ao fim, e talvez seja justamente disso que o público esteja atrás ao final de anos tão pesados.