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Crítica

"O Troll da Montanha": Mitologia nórdica encontra Hollywood em bom filme da Netflix

Filme norueguês "O Troll da Montanha" mistura mitologia nórdica às fórmulas do cinema de ação e dos filmes-desastre que fazem tanto sucesso mundo afora

Publicado em 03 de Dezembro de 2022 às 20:54

Públicado em 

03 dez 2022 às 20:54
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Filme norueguês
Filme norueguês "O Troll da Montanha", disponível na Netflix Crédito: Jallo Faber/Netflix
“O Troll da Montanha”, filme norueguês da Netflix, é um blockbuster em sua essência. O diretor Roar Uthaug, não estranho às narrativas hollywoodianas, como no bom filme-desastre “A Onda” (2015), o primeiro do gênero na Noruega, ou no quase desastre de filme “Tomb Raider” (2018), cria um filme pop, de fácil consumo, sem grandes desafios. Ao contrário do modelo de grandes produções internacionais, que tentam “americanizar” alguns conceitos, o filme de Uthaug se sustenta todo na cultura norueguesa.
O filme tem início quando conhecemos Nora ainda adolescente (interpretada por Ameli Olving Sælevik) e seu pai, Tobias (Gard B. Eidsvold), em uma montanha na Noruega. Ele conta a ela histórias sobre as montanhas e lendas sobre os trolls, criaturas mitológicas que circulavam livremente pelo país antes da chegada dos cristãos e do massacre das crenças da região. Após um salto de 20 anos, voltamos ao local onde agora está sendo construída uma rodovia - as montanhas e suas histórias estão prestes a ser demolidas, mas algo dá errado.
Voltamos então a Nora, agora adulta e interpretada por Ine Marie Wilmann, uma paleobiologia em busca de fósseis. Um helicóptero com representantes do governo chega para levá-la com urgência a Oslo, pois parece haver algo estranho. Chegando lá, ela percebe uma forma humanoide gigante em meio à explosão da montanha Dovre. Estaria ela ficando doida ou as histórias que seu pai contava quando ela era uma criança eram reais?
“O Troll da Montanha” se assemelha muito a um filme-desastre em seu primeiro ato, com cientistas sendo desacreditados e autoridades não sabendo como lidar com forças da natureza. O troll é exatamente isso, uma força da natureza, não é boa ou má, apenas uma força reagindo à ameaça de extinção. Esse arco levanta discussões sobre o progresso inconsequente e a inexistente preocupação de autoridades com o meio ambiente, mas nenhuma deles é minimamente desenvolvido, pois, como dito, o filme de Uthaug é um blockbuster, se preocupando mais com o espetáculo do que com o conteúdo.
Filme norueguês
Filme norueguês "O Troll da Montanha", disponível na Netflix Crédito: Francisco Munoz/Netflix
Neste ponto, o filme da Netflix funciona. Com bons efeitos e uma narrativa eficiente, “O Troll da Montanha” parece um filme produzido em Hollywood, um Godzilla ou um King Kong com orgulho nórdico. É justamente isso que transforma um filme que poderia ser genérico em algo único - o roteiro, idealizado pelo diretor e coescrito por Espen Aukan, é muito eficaz ao introduzir uma mitologia norueguesa de forma natural; a sequência que finalmente apresenta o "monstro" é ótima. É bem verdade que a cultura nórdica anda em alta já há alguns anos, mas os trolls foram pouco explorados pela cultura pop, ao menos desas forma, e o filme o faz de forma natural.
É muito interessante, por exemplo, o paralelo que o texto traça entre o troll e Tobias, o pai da protagonista. A similaridade até “física” entre eles é sutil a princípio, mas ganha força com o tempo e se torna bem expositiva ao final - estamos, afinal, falando de um blockbuster. Tal qual o ser mitológico, Tobias é um pária, um sujeito desacreditado, transformado em piada pela sociedade moderna.
Filme norueguês
Filme norueguês "O Troll da Montanha", disponível na Netflix Crédito: Jallo Faber/Netflix
O paralelo entre os dois segue até o desfecho de cada um na trama. Sem entrar em spoilers, é possível dizer que o filme, talvez até de maneira não-intencional, brinca com esse aspecto, transformando-os em lendas, em histórias ignoradas pela maioria. O roteiro também ensaia uma crítica à cristianização da Escandinávia, história mostrada (de forma ficcionalizada, claro) por séries como “The Last Kingdom”, “Vikings” e “Vikings: Valhalla”, e à supressão da mitologia local pela mitologia cristã - se ninguém se lembrar dos contos de fadas e das histórias fantasiosas, elas deixam de existir, se tornam insignificantes, como Neil Gaiman bem mostra no livro “Deuses Americanos” (a série não é grandes coisas).
“O Troll da Montanha” é ágil e se coloca o tempo todo em movimento. Sim, o filme se rende às convenções do blockbuster hollywoodiano e aos vícios da fórmula, mas funciona. Fosse estrelado por Charlize Theron e/ou Dwayne Johnson, estaria nos cinemas mundo afora, com grandes campanhas de marketing, mas sendo uma produção norueguesa, encontra na Netflix uma boa plataforma para ser assistida e desfrutada. Um bom filme que reúne elementos do cinema de desastre com o de ação e ainda tem uma protagonista interessante. Não há muito mais a se pedir de um blockbuster.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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