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Crítica

"Pornhub: Sexo Bilionário", da Netflix, nem disfarça suas motivações

Documentário "Pornhub: Sexo Bilionário" promete um mergulho na indústria de pornografia, mas busca apenas vender o Pornhub ao espectador

Publicado em 15 de Março de 2023 às 21:28

Públicado em 

15 mar 2023 às 21:28
Rafael Braz

Colunista

Rafael Braz

rbraz@redegazeta.com.br

Imagens do documentário
Documentário "Pornhub: Sexo Bilionário", da Netflix, mergulha na indústria da pornografia e em seus problemas Crédito: Netflix/Divulgação
Em certo ponto de “Pornhub: Sexo Bilionário”, documentário da Netflix sobre o mais popular site pornô do mundo, um ator pornô afirma: “Esse modelo (Pornhub) mostrou que os atores sempre estiveram no poder e que eles podem ditar o querem e o que não querem”. A fala faz sentido diante de tudo o que foi apresentado pelo filme de Suzanne Hillinger até aquele ponto e se torna a mensagem do documentário que tem a clara intenção de tratar o modelo de trabalho do Pornhub como a salvação da indústria pornográfica.
O filme começa comendo pelas beiradas, traçando paralelos entre os avanços tecnológicos, principalmente a velocidade de conexão, e o consumo de pornografia. Quando as conexões se tornaram mais rápidas e os sites, mais populares, o modelo da indústria, baseado praticamente em venda de DVDs, se tornou escasso. O filme faz questão de mostrar que, o que poderia ser um grande problema acabou virando uma solução, pois atores e atrizes, ou seja, os protagonistas da indústria, finalmente poderiam tomar as rédeas do próprio negócio e não se sujeitar a diretores e produtores em trabalhos com condições ruins ou parceiros de cena de quem não gostavam.
“Pornhub: Sexo Bilionário” é inteligente ao apresentar esse arco antes de tentar equilibrar a narrativa. Se aproximando de um texto jornalístico, o filme dá espaço para o “outro lado” ao tratar as acusações de que a plataforma permite vídeos de menores de idade e de estupros, além de outros sem o consentimento das pessoas lá expostas. Esse arco ocupa todo o segundo ato do documentário, com depoimentos de pessoas que tiveram seus vídeos postados no site sem autorização, falas de ex-funcionários e de ativistas que acusam o Pornhub inclusive de tráfico sexual.
É curioso com a acusação de tráfico, a mais fácil de ser combatida, acaba ganhando mais força na narrativa justamente para ser desconstruída pela defesa. Como uma espécie de mea culpa, o filme traz os responsáveis pelo site reconhecendo a dificuldade de se combater o upload ilegal de conteúdo e mostra os esforços deles na tarefa enquanto uma narrativa maior se desenvolve.
Imagens do documentário
Documentário "Pornhub: Sexo Bilionário", da Netflix, mergulha na indústria da pornografia e em seus problemas Crédito: Netflix/Divulgação
Em determinado momento, surge o argumento de que tudo faz parte de um plano maior não de combate aos crimes, mas à pornografia, um plano comandado por conservadores americanos que não se preocupam com os supostos crimes, mas em combater o sexo. É justamente quando todo o arco inicial, apresentando atrizes e atores que se sustentam com esses vídeos e que conseguiram sua independência justamente com o modelo do Pornhub, volta a fazer sentido - o público já os conhece e simpatiza com eles, principalmente com a carismática Gwen Adora e a eloquente Siri Dahl.
“Pornhub: Sexo Bilionário” logo lida com os problemas do modelo das plataformas como “inevitáveis” e vende o Pornhub, seu protagonista, como a “menos pior”, a empresa que pelo menos possui pessoas preocupadas em combater os problemas. Essa construção vem desde a sequência de abertura, que ressalta que, apesar de ser uma empresa do ramo da pornografia, ela é bem convencional, bem sólida, parte de um grupo maior e muito focada nos negócios.
Imagens do documentário
Documentário "Pornhub: Sexo Bilionário", da Netflix, mergulha na indústria da pornografia e em seus problemas Crédito: Netflix/Divulgação
Ao trazer essa informação logo de cara, o filme parece querer vender algo ao espectador, convencê-lo previamente de algo que será apresentado apenas adiante. “Pornhub: Sexo Bilionário” funciona como o produto que quer ser, mas falha muito ao explorar os problemas que ocorrem na plataforma, praticamente lavando as mãos, “fazemos o que podemos”. Ao fim, fica a mensagem de “ruim com ela, muito pior sem ela”, principalmente quando o texto informa que aqueles atores e aquelas atrizes independentes que vimos no início do filme tiveram que voltar ao antigo modelo de negócios.
Imagens do documentário
Documentário "Pornhub: Sexo Bilionário", da Netflix, mergulha na indústria da pornografia e em seus problemas Crédito: Netflix/Divulgação
“Pornhub: Sexo Bilionário” é um documentário sobre a indústria e não tem nenhum conteúdo explícito (o que é bom ressaltar aos interessados). A narrativa começa bem, com o filme se esforçando para construir a imagem da Pornhub como um ícone pop, mas se torna cansativa, principalmente quando percebemos suas motivações e as artimanhas usadas pelo texto para mexer com o espectador e levá-lo para o seu lado da história.

Rafael Braz

Crítico de séries e cinema, Rafael Braz é jornalista de A Gazeta desde 2008. Além disso, é colunista de cultura, comentarista da Rádio CBN Vitória e comanda semanalmente o quadro Em Cartaz

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