É interessante pensarmos o perfeito timing de lançamento de “The Witcher: A Origem” pela Netflix, afinal, faz pouquíssimo tempo que a plataforma anunciou que Henry Cavill deixará de ser Geralt de la Rivia e dará lugar a Liam Hemsworth a partir da quarta temporada. Conseguiria a série sobreviver sem seu grande astro? Lançada como minissérie de quatro episódios, a nova série mostra que o universo imaginado pelo escritor polonês Andrzej Sapkowski não só funciona bem sem Cavill, mas também sem Geralt.
A minissérie se situa 1200 anos das aventuras de Geralt, na era de ouro dos elfos, um período em que não havia monstros ou bruxos no continente. Os clãs élficos lutam por poder na cidade histórica de Xin-Trea, onde algumas forças planejam um golpe para assumir de vez o poder. É lá que conhecemos os Fjall (Laurence O’Fuarain), um elfo guerreiro que acaba exilado e esbarra com Éile (Sophia Brown), uma elfa que optou por se tornar bardo e também se tornou uma pária. Os dois logo se tornam alvos dos novos comandantes do reino e partem em fuga.
Os dois episódios iniciais servem basicamente para introduzir os personagens. “The Witcher: A Origem” é obviamente influenciado pelo clássico faroeste “Sete Homens e Um Destino” (1960) até no número de integrantes do núcleo principal. Élie e Fjall partem em busca da ajuda de Scián (Michelle Yeoh), ex-mestre de espada da bardo e também uma exilada. Aos poucos, outros se juntam ao grupo, com destaque absoluto para a anã Meldof (Francesca Mills), que merecia uma história individual.
A minissérie da Netflix tem a essência dos livros de Sapkowski, de arcos de histórias contadas, mas merecia ser maior. O texto faz a boa escolha de desenvolver os personagens principais e o universo de “The Witcher”, oferecendo contexto ao mundo que já conhecemos, mas acaba se apressando na resolução, no embate final do grupo de exilados com o império. Algumas soluções são imediatas e parecem mal-explicadas, mas nada disso compromete.
“The Witcher: A Origem” tem ótimas cenas de ação, boas coreografias, principalmente com Michelle Yeoh, e efeitos visuais razoáveis. O problema é que, em um ano com “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder” e “A Casa do Dragão”, a comparação colocará a série da Netflix alguns degraus abaixo, deixando claro o fato de ser uma obra bem mais simples e de produção mais modesta, mas que aproveita ao máximo as locações, na Islândia, para mostrar um Continente próximo da realidade.
A minissérie traz algumas conexões tanto com a série da Netflix quanto com os livros - alguns personagens conhecidos e referências alimentam os fãs mais atentos, mas o arco principal da série é explicar como os monstros chegaram ao Continente e também como surgiram os bruxos. O roteiro acaba também dando um jeitinho para conectar o que vemos em tela com o que virá adiante na terceira temporada de “The Witcher”, transformando a minissérie quase em um interlúdio.
Como normalmente critico a longa duração de algumas séries, chega a ser uma ironia reclamar que “The Witcher: A Origem” deveria ter uns dois episódios a mais. O texto deveria oferecer mais contextualização da luta de poder para que nos importássemos com os envolvidos, mas, principalmente, deveria desenvolver mais os personagens que acompanham Éile e Fjall no combate. Acredito, porém, na forte possibilidade dessas histórias serem apresentadas em outras minisséries, bem ao estilo dos livros de Andrzej Sapkowski. Tudo depende, claro, da audiência.
Ao fim, “The Witcher: A Origem” é ótima, apesar dos problemas. A minissérie amplia o universo de “The WItcher” nas telas e explora novos caminhos para ele. A influência dos faroestes clássicos e das histórias de samurai é um grande acerto para mostrar ao público da Netflix algo que os leitores dos livros já sabem: há muito mais no universo criado por Sapkowski do que as aventuras de Geralt.