Sair
Assine
Entrar

Renata Rasseli

"Pandemia pode deixar adolescentes mais ansiosos", diz psicanalista

A psicanalista Vera Saleme diz que o isolamento social pode deixar os jovens frustrados,  ansiosos e alguns até mais agressivos

Publicado em 16 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

16 mai 2020 às 05:00
Renata Rasseli

Colunista

Renata Rasseli

rrasseli@redegazeta.com.br

Vera Saleme, psicanalista
Vera Saleme, psicanalista, está atendendo seus pacientes  Crédito: Divulgação
A adolescência é o  tempo de passagem da infância para a idade adulta. É um tempo de descobertas e muitas interações sociais. Mas diante da pandemia do coronavírus, muitos adolescentes estão mais cansados e ansiosos. É o que revela a psicanalista Vera Saleme, especialista no atendimento de crianças e adolescentes.  "Os adolescentes não podem estar com os amigos, não podem sair e são obrigados a permanecerem somente com os pais. Os impactos disso apresentam-se através das frustrações, que são marcantes nessa fase. Ao sentirem-se frustrados, alguns ficam mais ansiosos, outros mais agressivos, outros mais sensíveis", alerta a psicanalista. 

Quais os maiores impactos até o momento para os adolescentes neste isolamento social?

A adolescência é um tempo de transição, de passagem da infância para a idade adulta. Tempo em que há um afastamento parcial da família por parte do adolescente, inclusive do ponto de vista afetivo, e a busca por novas identificações no mundo. Com a pandemia do Covid-19, essa passagem fica comprometida. Os adolescentes não podem estar com os amigos, não podem sair e são obrigados a permanecerem somente com os pais. Os impactos disso apresentam-se através das frustrações, que são marcantes nessa fase. Ao sentirem-se frustrados, alguns ficam mais ansiosos, outros mais agressivos, outros mais sensíveis. Muitas vezes sentem-se invadidos no privado do quarto pelos pais e pela escola (através das aulas online). A dificuldade de concentração nas tarefas escolares, a queixa de cansaço por estudar somente pela internet ou ainda a timidez de abrirem o vídeo ou participarem das aulas podem se apresentar como formas de defesa a isso.

Como os pais podem ajudar?

A primeira coisa que os pais precisam entender é a necessidade dos filhos de preservarem seu espaço privado. Eles precisam desse espaço para se destacarem dos pais. Espaço e tempo para elaborar e fazer o luto de sua posição de criança. Os pais também precisam fazer o luto da criança que seu filho/a até então era para eles. Outra reflexão essencial é o reconhecimento da importância da manutenção dos laços de amizade através das redes sociais, única maneira possível hoje de fazê-lo. Caso haja algum excesso, é fundamental procurar entender o que está acontecendo com os filhos. Refletir sobre seus silêncios, suas inibições e seus sintomas. Quando detectado algum sinal de que eles não estão bem, cabe conversar com eles sobre suas dificuldades. E caso se confirme uma situação de muito sofrimento, propor procurar ajuda de um profissional. Sobre as dificuldades dos filhos cumprirem com as tarefas escolares, muitas vezes os pais agem de forma imperativa, punindo-os. É preciso ter prudência e analisar o que se passa. Ter um tempo para sentar, dialogar e escutar seus filhos, não só em relação às dificuldades escolares, mas também a tudo isso que se passa no mundo é fundamental.

O que pode ser inserido na rotina de home school, internet e TV para melhorar as condições emocionais dos adolescentes?

Cabe pensar em espaços de diálogos, que podem vir acompanhados da introdução de debates sobre filmes, músicas e livros. Outra possibilidade é conversar no sentido de estimular a descoberta de interesse por atividades artísticas (composição de poesias, músicas, pinturas, escrita, etc). A ferramenta da arte é sempre um bom caminho para dar um lugar às angústias decorrentes dessa fase difícil pela qual estamos passando. São instrumentos simbólicos para dar um contorno ao real próprio dessa fase, potencializado pela presença do real da morte que o novo coronavírus traz.

A falta de vida social (festinhas, cinema, shows) tem deixado a maioria deles sem uma agenda de diversão. Existe um caminho alternativo?

Com o isolamento social, as atividades artísticas acima citadas podem ser um caminho. Além disso, eles podem preservar as relações com os amigos através de encontros online. Manter esses contatos é fundamental nessa etapa de vida.

Como eles e a família devem se preparar para o pós-pandemia, que inclui a volta às aulas presenciais?

Acredito que as aulas presenciais não voltarão logo. Mas quando voltarem, os pais devem observar bem seus filhos, uma vez que eles podem ter atitudes de excesso pelo tempo de represamento dos impulsos próprios dessa etapa de vida. Podem querer viver de uma vez tudo o que foram privados durante o período de isolamento social. Vale lembrar que a adolescência é uma fase da vida em que eclodem os hormônios e as pulsões ficam soltas, ainda sem endereçamento. Acompanhar à distância e dialogar é essencial nesse momento.

Renata Rasseli

A jornalista Renata Rasseli cobre os eventos sociais, culturais e empresariais mais importantes do Estado. Sua marca é aliar notícias a tendências de moda, luxo, turismo e estilo de vida

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
A investigação que coloca a JBS de Joesley Batista na mira do governo Trump
Imagem BBC Brasil
Influenciadora em ética de IA tem redes sociais derrubadas
Com inscrições gratuitas, o evento contará com a participação de Aline Midlej, apresentadora do Jornal das 10 na GloboNews
Todas Elas debate protagonismo feminino em evento na Rede Gazeta

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados