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Economia

A desconfiança com a independência do Banco Central

O presidente do BC se manteve próximo dos bolsonaristas e, até meados do mês de janeiro, seguia em um grupo de WhatsApp que reúne ex-ministros de Bolsonaro

Publicado em 20 de Fevereiro de 2023 às 00:10

Públicado em 

20 fev 2023 às 00:10
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

medrodrigo@gmail.com

Na sua coluna na Folha de S.Paulo de 4 de fevereiro de 2023, Mônica Bergamo trouxe informações de que o presidente Lula considera que o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, “traiu a confiança que o governo depositava nele para dialogar e participar de um esforço conjunto para que o Brasil supere os problemas econômicos que hoje enfrenta sem passar por uma recessão”. Serei breve no comentário de alguns aspectos dessa desconfiança.
A jornalista revelou então que o governo compreende que “o BC estaria dificultando a recuperação do crédito e a atividade econômica no país, e colocando o Brasil na rota da recessão”. Campos Neto foi indicado para o cargo por Jair Bolsonaro e está cumprindo mandato de quatro anos. De acordo com a colunista, “o presidente do Banco Central sempre foi alinhado com o bolsonarismo”.
Segundo a jornalista, Campos Neto “chegou a ir a jantares de Bolsonaro com empresários organizados para apoiar as medidas econômicas adotadas pelo presidente e pelo então ministro da Economia, Paulo Guedes”. Ele até discursava nesses encontros. Campos Neto justificava a presença nesses encontros com o argumento de que os ministros de Bolsonaro seriam “técnicos” e que, portanto, “não haveria problema em se misturar com eles”, ressaltou Mônica Bergamo.
O presidente do BC se manteve próximo dos bolsonaristas, afirmou a jornalista e, até meados do mês de janeiro, seguia em um grupo de WhatsApp que reúne ex-ministros de Bolsonaro. Em sua coluna em O Globo, de 10 de fevereiro, Bernardo Mello Franco ponderou que “nem o 8 de janeiro o convenceu a deixar o grupo de mensagens ministros Bolsonaro, onde trocava figurinhas com ex-colegas como Damares Alves e Augusto Heleno”. Conversas técnicas?
Dados disponibilizados pelo Fundo Monetário Internacional revelam que o Brasil cresceu abaixo da economia mundial nos últimos anos. A inflação é um fenômeno global desde meados de 2020, atingindo inclusive as economias desenvolvidas. Essas economias têm praticado taxas básicas de juros reais negativas, diferentemente do Brasil, cuja taxa básica de juros excessivamente elevada agrava o quadro fiscal.
Ilustração de dinheiro dos cofres públicos
Crédito: Jose Luis Stephens
Uma matéria veiculada no Jornal Nacional mostrou que a pandemia de Covid-19, a alta das taxas de juros e o consumo reprimido foram fatores que contribuíram para o aumento do endividamento das famílias brasileiras. Essa matéria foi publicada no portal G1, no dia 20 de janeiro de 2023. O consumo é uma importante fonte de crescimento da nossa economia, cuja informalidade atinge quase 40% dos ocupados.
Em 2022, endividadas estiveram quase 80% das famílias, sendo que o percentual de inadimplentes se aproximou de 30%. A insegurança alimentar avançou para mais da metade da população brasileira e a fome atingiu 33 milhões de pessoas. A tragédia dos yanomamis, cujo sofrimento chocou o mundo, também não pode ser esquecida. Essas são apenas algumas heranças deixadas pelos quadros “técnicos” do governo anterior.
Relatório da Oxfam, de janeiro de 2023, destacou que “concentrações extremas de riqueza prejudicam o crescimento econômico, corrompem a política e a mídia, corroem a democracia e impulsionam a polarização política”. Deveríamos estar refletindo mais sobre a deterioração da qualidade da nossa democracia, pois somos um dos países mais desiguais do mundo, algo que tem o potencial de exacerbar as nossas divisões sociais. A política monetária tem impactos distributivos e redistributivos.
Em relação aos preços internacionais de energia e alimentos, a Oxfam ponderou que um “conjunto cada vez maior de evidências aponta para lucros e margens como importantes impulsionadores da inflação”. Não se trata de um problema de demanda excessiva, pois os oligopólios “não apenas estão repassando o aumento dos custos de insumos para os consumidores, mas também estão capitalizando a crise, usando-a como cortina de fumaça para cobrar preços ainda mais altos”.
Para termos uma rápida dimensão da questão, a Oxfam afirmou que “as empresas de alimentos e energia mais do que dobraram seus lucros em 2022, pagando 257 bilhões de dólares a acionistas ricos, enquanto mais de 800 milhões de pessoas foram dormir com fome”. Como síntese, pode-se dizer que as riquezas foram concentradas no topo, enquanto os custos ambientais foram socializados em diversos países.
A Oxfam revelou ainda que estamos passando por um momento de múltiplas crises. Fome, aumento dos custos básicos de vida e crises ambientais estão “incapacitando as economias, e vemos secas, ciclones e inundações obrigando as pessoas a abandonarem seus lares”. Os bancos centrais responsáveis devem considerar as consequências de suas ações em países democráticos.
Para quem tiver mais interesse nesse debate, recomendo dois programas. O primeiro é o episódio 164 do podcast “Fora da política não há salvação”, com os cientistas políticos Cláudio Couto e Daniela Campello, ambos da Fundação Getúlio Vargas. Também recomendo o podcast "Pensando alto", episódio 5, da economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, sobre a ampliação das responsabilidades de um banco central após a crise financeira global de 2008.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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