De acordo com uma matéria assinada por Lara Machado e Renata Buono, no dia 6 de novembro, na edição digital da revista Piauí, “em 2024, o Brasil terá mais universitários em cursos à distância do que em presenciais”. A previsão foi feita no Censo da Educação Superior. Em síntese, “o ensino à distância, conhecido pela sigla EaD, cresce continuamente desde 2015 e ganhou força na pandemia”. Farei alguns breves comentários sobre o assunto.
Segundo as autoras da matéria, “se, por um lado, o EaD é inclusivo, atendendo a um público mais velho e de menor renda, por outro, tem maior evasão e menos cursos de excelência”, conforme mostram os números oficiais. Em 2022, três milhões de brasileiros ingressaram em faculdades EaD e 1,6 milhão na modalidade presencial, que ainda conta com a maioria das matrículas universitárias.
Machado e Buono citaram, com base nos números oficiais, que “35% dos universitários de cursos presenciais têm renda familiar superior a 4,5 salários mínimos; no EaD, a proporção é de 24%”. Enquanto 52% dos discentes dos cursos presenciais têm até 24 anos, apenas 19% dos discentes do EaD estão nessa faixa etária. A evasão registrada no EaD foi de 66%, sendo que para o ensino presencial o número foi de 47%.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) estimou que, em 2024, as matrículas nos cursos EaD superarão as matrículas em cursos presenciais. O problema é que muitos professores estão se formando sem contato com a sala de aula. Segundo consta na matéria, “dos 1,6 milhão de matriculados em cursos de licenciatura em 2022, 64% estudavam na modalidade EaD”. A proporção foi de 88% na rede privada.
Conforme foi destacado na matéria, “o ensino à distância nas universidades públicas tem uma média de 34 alunos por professor; na rede privada, são 171 alunos por professor”. Quanto maior for a razão aluno-docente, mais difícil será atender às necessidades pedagógicas individuais dos estudantes. Esse é um dos critérios do Inep para avaliar a qualidade do ensino nas universidades.
Em outros artigos publicados neste espaço, busquei mostrar a relação íntima entre digitalização e precarização laboral. Pelo que revelam os números públicos disponíveis, a precarização chegou com força empresarial e apoio político na educação superior. O trabalho dos docentes brasileiros está sofrendo mais uma rodada de precarização, como se não bastasse a precarização histórica e estrutural na base educacional.
Mostrei também em artigos anteriores que os últimos dez anos foram trágicos em termos de renda e qualidade de empregos para os brasileiros que se esforçaram para estudar mais. Perdeu mais quem mais estudou nos últimos dez anos, segundo a pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), divulgada em setembro, com base nos dados do IBGE. Ressaltei que estamos convivendo com uma taxa de 60% de precarização no mercado de trabalho brasileiro, de acordo com os dados do IBGE para o trimestre encerrado em setembro.
Uma estrutura produtiva de baixa sofisticação tecnológica vem revelando o seu custo social. Para quem estudou 16 anos ou mais, a queda real foi de 16,7% na renda do trabalho nos últimos dez anos. A informalidade laboral cresceu mais entre quem estudou mais. Estão sendo geradas ocupações ruins, que pagam pouco e que são de baixa produtividade intrínseca, algo que afeta o desempenho econômico brasileiro e reforça as nossas desigualdades sociais extremas.
Caso as políticas públicas continuem reforçando o quadro de normalidade trágica, dificilmente poderemos esperar por resultados diferentes no horizonte. A excessiva concentração de riquezas pode reforçar aspectos perversos da preferência pela liquidez da parte de uma minoria abastada.
Concentrações excessivas de riquezas e poder, por sua vez, distorcem os processos políticos nas democracias liberais, colocando a própria democracia em risco. Conhecemos bem os dramas do imobilismo político em movimento expresso na agenda das reformas regressivas.