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Sociedade

A política das desigualdades não é fruto do acaso no Brasil

Ela é o resultado de escolhas reiteradas ao longo do tempo, que privilegiam rendas financeiras, desorganizam o sistema produtivo e corroem as bases de um projeto nacional de desenvolvimento
Rodrigo Medeiros

Publicado em 

05 jan 2026 às 03:00

Publicado em 05 de Janeiro de 2026 às 06:00

Em artigo anterior publicado neste espaço, argumentei que a desindustrialização brasileira não se manifesta de forma homogênea. Quando alguns comemoravam o recuo do tarifaço norte-americano sobre produtos brasileiros, chamei a atenção para um dado incômodo. Conforme observou Pedro Cafardo, em coluna no Valor Econômico de 9 de dezembro, tais produtos eram “em sua esmagadora maioria, commodities agrícolas”.
O colunista alertou que “nenhum país ficou rico apenas exportando commodities agrícolas”. A desindustrialização precoce iniciada no Brasil a partir de 1986 comprometeu a consolidação de setores tecnológicos estratégicos e inviabilizou a construção de um sistema nacional de inovação robusto. Há anos, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira vem alertando que, sem a redução das desigualdades, o Brasil será incapaz de se modernizar e de construir uma sociedade verdadeiramente digna de se viver.
Professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, Bresser-Pereira desenvolveu análises centrais no livro "Em busca do desenvolvimento perdido" (FGV, 2018). Entre suas proposições, destaca-se a necessidade de uma nova coalizão de classes desenvolvimentista, capaz de escapar tanto do populismo liberal quanto do populismo desenvolvimentista.
Calor extremo reforça a desigualdade social
Calor extremo reforça a desigualdade social Crédito: Fernando Estevão
Segundo o autor, o populismo liberal se expressa por meio de políticas de crescimento baseadas em endividamento externo, apreciação artificial da taxa de câmbio e déficits crônicos em conta-corrente. O populismo desenvolvimentista, por sua vez, combinou crescimento com endividamento externo e expansão fiscal desnecessária. Os resultados dessas orientações são conhecidos: crises recorrentes, instabilidade macroeconômica e perda de capacidade produtiva.
A partir da teoria do novo desenvolvimentismo, Bresser-Pereira enfatizou que “investimento e desenvolvimento econômico dependem da taxa de câmbio”. Mesmo em setores competitivos, alguma intervenção do Estado é indispensável, seja para proteger a indústria nascente, conduzir políticas industriais ou, sobretudo, neutralizar os efeitos da chamada doença holandesa.
Dados recentes reforçam a gravidade do quadro. O Relatório da Desigualdade Mundial de 2025 (World Inequality Report), coordenado por pesquisadores liderados pelo economista francês Thomas Piketty, revelou que o Brasil ocupa a quinta posição entre 216 países e territórios em desigualdade de renda. Apenas África do Sul, Colômbia, México e Chile apresentaram piores quadros.
Políticas sociais compensatórias são necessárias, porém elas mostram-se insuficientes para enfrentar desigualdades estruturais e históricas. De acordo com o relatório, os 10% mais ricos concentram cerca de 59% da renda, enquanto os 50% mais pobres ficam com apenas 9%.
A desigualdade patrimonial é ainda mais extrema no Brasil: os 10% mais ricos detêm 70% da riqueza total e o 1% mais rico concentra mais de um terço da riqueza. Uma coalizão oligárquica e rentista capturou o Estado brasileiro e, desde os anos 1990, impõe a semiestagnação como modelo econômico.
Números públicos do Banco Central do Brasil confirmam essa perversa dinâmica. Em 2025, no acumulado de doze meses até outubro, os juros nominais atingiram R$ 987,2 bilhões (7,88% do PIB), frente a R$ 869,3 bilhões (7,48% do PIB) no mesmo período de 2024. Trata-se de uma verdadeira política de “Robin Hood às avessas”, que transfere recursos da base da sociedade para o topo da pirâmide.
Não surpreende, portanto, a recente decisão do Congresso Nacional de aprovar cortes de quase R$ 500 milhões no orçamento das 69 universidades federais para 2026, reduzindo os recursos disponíveis para apenas R$ 6,43 bilhões. O mesmo Congresso autorizou R$ 61 bilhões em emendas parlamentares para o ano eleitoral. O Orçamento de 2026 ainda prevê cortes em despesas previdenciárias e em programas sociais como o Pé-de-Meia e o Auxílio Gás.
A política das desigualdades não é fruto do acaso no Brasil. Ela é o resultado de escolhas reiteradas ao longo do tempo, que privilegiam rendas financeiras, desorganizam o sistema produtivo e corroem as bases de um projeto nacional de desenvolvimento. Enquanto essas escolhas persistirem, as desigualdades extremas seguirão como o eixo principal da tragédia política brasileira.
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