Muito já foi discutido sobre a necessidade de aprimorar esforços coletivos no sentido do desenvolvimento regional. Restam poucas dúvidas de que as políticas públicas que consideram os recursos existentes nas localidades tendem a ser mais exitosas e eficientes. Essa discussão é relevante e, nesse sentido, duas matérias da empresa pública de radiodifusão alemã Deutsche Welle (DW) merecem atenção.
A primeira matéria, de 11 de fevereiro, assinada por Andreas Becker, apontou para o fato de que se pode ganhar muito dinheiro com o café, mas não com o seu cultivo. Becker trouxe a informação de que alguns amantes do café gastam quase 100 euros por meio quilo de café na Europa. No mercado mundial, meio quilo de grãos de café não torrados custou, em janeiro de 2021, entre 0,65 e 1,05 euros, dependendo da variedade. Os números citados na matéria são da Organização Internacional do Café (ICO), com sede em Londres.
O volume anual em todo o mundo é estimado em 165 bilhões de euros para os negócios do café. No entanto, apenas um décimo representa o ganho nos países onde o café é cultivado: América do Sul e Central, Ásia e África. A maior parte da renda gerada flui para a Europa e os Estados Unidos. Trata-se do chamado valor agregado, que inclui a torrefação, as embalagens, o marketing e os canais de distribuição.
Segundo Becker, o comércio internacional de café quadruplicou nos últimos trinta anos, em favor das empresas de café nos países desenvolvidos. Não basta cultivar os grãos, é necessário investir em tecnologia, cuidar do processamento e de outras etapas da cadeia de valor do produto. Há dificuldades logísticas e de marketing para os países produtores.
A Suíça, por exemplo, ganha muito dinheiro sem produzir café. Esse pequeno país desenvolvido é responsável por quase 25% das exportações mundiais de café torrado. O café em cápsulas, por sua vez, desempenha também um papel importante e, de acordo com a matéria, “as empresas suíças criaram novas formas de consumir café e seu marketing o vinculou a um estilo de vida moderno”.
Em relação ao comércio, Becker ressaltou que as regras alfandegárias da União Europeia reforçam o status quo. Os grãos de café crus de países em desenvolvimento e emergentes podem ser importados sem impostos. Para produtos com maior valor agregado, como o café torrado, há tarifas de quase 10%.
Outra matéria da DW, de 25 de setembro, revelou que a pandemia de Covid-19 trouxe o crescimento do comércio digital, algo que pode ser bem explorado pelos países produtores de café. Políticas públicas são necessárias para tanto, pois aproximadamente 80% dos cafeicultores vivem abaixo da pobreza no mundo.
Desde 2002, a marca colombiana Juan Valdez, citada na matéria, vem trabalhando para ampliar internacionalmente a presença do café produzido naquele país. Trata-se de uma marca que visa potencializar o trabalho de 540.000 famílias cafeicultoras. A marca possui 335 lojas na Colômbia, 133 lojas internacionais e presença em 33 mercados internacionais.
Creio que essa discussão é relevante para o Espírito Santo e para as possibilidades de articulação de políticas públicas que busquem gerar maior prosperidade em nosso território. Afinal, há etapas das cadeias de adição de valor que poderíamos desenvolver a partir de novas políticas públicas que levem em conta a sustentabilidade ambiental?
Informações recentes sobre o “estresse hídrico” indicam insustentabilidade? Estímulos fiscais, crédito e conhecimentos técnicos integram o complexo desafio de agregação de valor sustentável no Espírito Santo.
Por fim, não devemos esquecer que a produção de alimentos pela agricultura familiar é também fundamental para a geração de renda no campo e para a segurança alimentar das famílias nas cidades. Políticas públicas que estabeleçam estímulos e condições sustentáveis de produção alimentar são fundamentais, a partir da articulação de programas de compras públicas com a oferta de instrumentos creditícios e de apoio técnico.