Uma matéria publicada recentemente no jornal Folha de S.Paulo, assinada por Leonardo Vieceli e Douglas Gavras, no dia 18 de dezembro, trouxe informações relevantes sobre como o número de trabalhadores subocupados cresce e trava o consumo no Brasil. Piorou o que já estava ruim antes da pandemia, e as perspectivas econômicas não são positivas para o futuro próximo, infelizmente.
Os subocupados representam os trabalhadores que trabalham menos de 40 horas semanais e que desejam atuar por mais tempo, de acordo com o IBGE. Para o terceiro trimestre de 2021, o número de subocupados foi de 7,771 milhões no país, uma alta de 9,4% frente ao mesmo trimestre de 2019.
Segundo a matéria, tal fato “representa uma espécie de trava para a recuperação do consumo, motor do crescimento econômico”. Conforme ponderou a matéria, “com menos renda no mês, manter o padrão de consumo vira uma tarefa mais difícil, principalmente em tempos de inflação alta, como é o caso atual”.
Reduzir o desemprego não bastará. O número de 7,771 milhões de subocupados é o maior já registrado na série histórica do IBGE, sob o recorte de trimestres tradicionais. Esse aumento da subocupação, alertou o economista Rodolpho Tobler, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), entrevistado na matéria, “afeta o consumo e, consequentemente, a atividade econômica”.
De acordo com a matéria, “antes da pandemia, o número de subocupados já havia ganhado força no Brasil”. As reduções da jornada e dos salários de trabalhadores formais durante a pandemia ajudaram a elevar o número de subocupados a partir do ano passado.
“Estamos vendo a população ocupada aumentar nos últimos trimestres, mas a renda média vem caindo”, afirmou Tobler. A inflação elevada dificulta a vida dos trabalhadores e o problema é que a economia emite sinais de estagnação no Brasil. Em síntese, a precarização do mercado de trabalho doméstico prejudica uma retomada econômica consistente.
Para 2022, segundo a matéria citada, economistas entendem que a economia deverá ficar entre a estagnação e a queda da atividade. Tal cenário, se confirmado, fará com que o fraco desempenho da economia precarize ainda mais o mercado de trabalho brasileiro, que já estava fragilizado antes da pandemia.
Clemente Ganz Lúcio, sociólogo do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômico (Dieese), também entrevistado, disse que “o trabalhador tem tido de conviver com uma realidade de insegurança, tanto do ponto de vista do emprego quanto da renda familiar, ausência de perspectivas de melhora do emprego e desproteção”. Gerar ocupações laborais de melhor qualidade dependerá de investimentos públicos e privados, viabilizando uma melhor distribuição de rendas e o crescimento das remunerações.
Em 2022, viveremos o bicentenário da independência brasileira e as eleições. Nesse sentido, devemos buscar empreender uma discussão séria e qualificada sobre os rumos do Brasil. No livro “O Extremo Ocidente”, publicado pela Editora da Universidade de São Paulo, em 1991, o cientista político Alain Rouquié apontou que a América Latina foi historicamente integrada ao mercado mundial em função das necessidades das sociedades europeias. Segundo o autor, “a extraversão econômica que disso decorre condicionou as modalidades de introdução do capitalismo na América Latina”.
Conforme afirmou Rouquié, “o setor moderno não tende a fazer desaparecer o setor atrasado, que lhe é indispensável”. Um dualismo do tipo “unidade de contrários” também se manifesta no Brasil, como reserva de mão de obra barata, informal e de baixa produtividade. O legado escravocrata ainda pesa no Brasil que, assim como outros países da América Latina, se formou a partir de predatórias explorações humanas e de recursos naturais.