O debate sobre os déficits em transações correntes costuma ser tratado no Brasil como questão de preferência teórica. A evidência empírica disponível, entretanto, aponta para o fato de que países que mantêm superávits externos tendem a crescer mais, enquanto aqueles que dependem cronicamente de financiamento externo enfrentam limitações estruturais ao crescimento.
Nesse sentido, a análise do professor Nelson Marconi, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), disponível na edição de fevereiro da revista Conjuntura Econômica, trouxe a comparação entre doze economias, entre 2001 e 2024. Veremos brevemente alguns aspectos dessa análise.
Países que apresentaram superávits persistentes nas transações correntes registraram crescimentos mais elevados do PIB per capita ao longo das últimas duas décadas. Eles combinam superávits comerciais robustos, poupança interna elevada e capacidade de investir no exterior.
Tal conjunto de elementos reduz a dependência de capitais externos e cria um ciclo de crescimento baseado em competitividade exportadora, não em endividamento. Países como Brasil, Argentina e México buscam recorrentemente fechar os seus déficits externos com o investimento direto estrangeiro (IDE).
Esse tipo de investimento não se traduz automaticamente na elevação das exportações. O resultado costuma ser o déficit em transações correntes financiado por IDE, acompanhado de remessas crescentes de lucros e dividendos ao longo do tempo.
O IDE, para os casos de dependência crônica, não costuma ampliar a capacidade exportadora; ele apenas financia o déficit e gera obrigações futuras. Trata-se de um fenômeno de substituição de poupança interna por poupança externa, isto é, o capital que entra no país não eleva a poupança total, mas financia o consumo.
A diferença entre países que transformam o IDE em crescimento e aqueles que não o fazem está na composição macroeconômica. Nos países latino-americanos, por exemplo, o consumo representa a parcela maior do PIB, enquanto a poupança doméstica é estruturalmente baixa por razões históricas e políticas.
O artigo de Marconi destacou um ponto sensível para o Brasil desde o Plano Real (1994): a combinação de juros elevados e câmbio valorizado. Essa opção atrai capitais financeiros, valoriza a moeda, estimula consumo, reduz competitividade exportadora da indústria de transformação, ampliando déficits externos e fiscais.
Nosso elevado gasto público com juros, além de concentrar renda, limita o investimento produtivo e afeta negativamente o resultado das contas públicas. O efeito líquido é um ambiente macroeconômico que reforça a dependência do capital externo e inibe efetivamente a formação de poupança doméstica.
O IDE, portanto, só contribui para o crescimento ao longo do tempo quando está associado ao aumento de exportações. Sem a elevação das exportações, ele amplia remessas de lucros, pressiona a conta de renda primária e aprofunda o déficit externo. Os países que conseguiram reverter déficits nas transações correntes o fizeram pela via da expansão exportadora.
A dependência crônica de capitais externos, combinada com juros altos e câmbio valorizado, não tem produzido aumento de competitividade nem fortalecido a poupança interna. Ela tem reforçado o baixo crescimento do PIB per capita, a baixa produtividade, a vulnerabilidade externa e a substituição de poupança doméstica por externa.
O professor emérito Luiz Carlos Bresser-Pereira, da FGV-SP, trouxe importantes discussões em seu livro ‘Em busca do desenvolvimento perdido’, editado pela FGV, em 2018. Destaco da respectiva obra do acadêmico e ex-ministro a necessidade de evitarmos os populismos liberal e desenvolvimentista.
Sobre o populismo liberal, Bresser-Pereira argumentou que ele se manifesta a partir da política de crescimento com endividamento externo, com apreciação cambial da moeda nacional e déficits crônicos nas transações correntes. Os desenvolvimentistas, por sua vez, promoveram historicamente políticas de crescimento com endividamento externo e expansão fiscal desnecessária.
“Investimento e desenvolvimento econômico dependem da taxa de câmbio”, explicou Bresser-Pereira. De acordo com o professor, “mesmo em setores competitivos alguma intervenção do Estado é necessária, seja para promover a indústria infante, seja para a realização da política industrial, e, principalmente, para neutralizar a doença holandesa”.
Como estamos? O Brasil aparece entre os países mais desiguais do mundo nos principais levantamentos internacionais sobre distribuição de renda. Segundo o Relatório da Desigualdade Mundial 2026, por exemplo, a renda concentrada no topo cresceu no Brasil. Os 10% mais ricos detêm aproximadamente 59% dos rendimentos nacionais, enquanto os 50% mais pobres recebem somente 9%. Estamos no rumo certo?