Segundo matérias publicadas na imprensa brasileira, está se formando um consenso entre economistas de que teremos inflação acima de 10%, pelo segundo ano consecutivo. Uma matéria publicada no Estadão, no dia 5 de maio, apontou que essa “possibilidade vem crescendo em meio aos persistentes impactos da guerra na Ucrânia, dúvidas sobre o efeito da política de ‘Covid zero’ na China nas cadeias produtivas, aumento dos juros nos Estados Unidos e o espalhamento das altas de preços no Brasil”.
Caso se concretize a expectativa inflacionária, ponderou a matéria, assinada por Maria Regina Silva, Cícero Cotrim, Guilherme Bianchini e Thaís Barcellos, “será a primeira vez, desde o início do Plano Real, que o país teria inflação de dois dígitos por dois anos seguidos - no ano passado, ficou em 10,06%”. Elevações contínuas da taxa básica de juros pelo Banco Central brasileiro, desde 2021, não foram capazes de frear esse processo inflacionário.
O Brasil vem desmontando políticas públicas capazes de regular os preços básicos desde 2016 pela via do reformismo regressivo. Políticas de desmonte dos estoques públicos de alimentos e de precificação internacional dos combustíveis revelam que parte dos problemas inflacionários que vivemos foram criados domesticamente, com um articulado apoio organizado por quem mais se beneficiou. Essas políticas reforçaram a concentração de rendas e riquezas no topo, impulsionaram o crescimento da pobreza e a elevação da insegurança alimentar na base.
De acordo com o IBGE, o desemprego caiu de 14,9% para 11,1% para o trimestre terminado em março de 2022 em comparação com o mesmo período do ano passado. No entanto, o rendimento real habitual caiu 8,7% entre os períodos citados. A taxa de informalidade, por sua vez, foi de 40,1% para a população ocupada no trimestre terminado em março de 2022, sendo que a informalidade atingiu 39,1% no mesmo trimestre de 2021. A taxa composta de subutilização foi de 23,2% em março de 2022, ou seja, 26,8 milhões de pessoas estavam subutilizadas no Brasil.
A massa de rendimento real habitualmente recebido em todos os trabalhos pelas pessoas ocupadas mostrou estabilidade em relação ao mesmo período do ano passado. Ela foi estimada pelo IBGE, para o trimestre móvel de janeiro a março de 2022, em R$ 237,7 bilhões de reais. Deve-se destacar que o rendimento real médio do trabalho não tem dado conta do processo inflacionário no Brasil e tal fato explica, em boa medida, o baixo desempenho esperado da economia para 2022, pois o consumo é um importante motor da atividade econômica doméstica.
Segundo revelou o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em uma publicação do dia 29 de abril, “o rendimento médio do trabalhador brasileiro era de R$ 2.377, no final de 2021, mas cerca da metade dos ocupados (54%) ganhava R$ 1.500 ou menos”. A inflação da cesta básica também foi destacada pelo Dieese, pois desde “meados de 2020, a inflação sobe mês a mês, quase ininterruptamente”. Em síntese, “a queda no poder de compra dos trabalhadores é agravada porque os preços dos produtos da cesta básica subiram ainda mais do que a inflação geral”.
A “dor de bolso” popular e a necessária melhoria das expectativas gerais demandam a revisão política das medidas efetivadas pelos poderes públicos nos últimos anos. O Brasil não pode se tornar uma permanente distopia tropical, uma variante trágica do realismo mágico latino-americano. Afinal, há riscos institucionais no horizonte, sendo que a crise entre os poderes da República e o “orçamento secreto” operado no Congresso demonstram que as instituições já não estavam funcionando tão bem.
Recentemente, soubemos pela imprensa que o diretor da Agência Central de Inteligência norte-americana, a CIA, teria feito advertências ao governo brasileiro, em julho do ano passado, contra interferências indevidas no processo eleitoral de nosso país e que recomendou respeito às urnas. O incrível desse episódio é que, sempre quando se envolveu com assuntos políticos na América Latina, a CIA patrocinou ou colaborou com golpes e ditaduras de direita, segundo a historiografia existente.
O jornalista Ricardo Noblat, por exemplo, em blog publicado no portal Metrópoles, revelou que “Joe Biden, o democrata que hoje preside os Estados Unidos, limitou-se a enviar o principal nome da espionagem americana para dizer que desta vez, se houver golpe, não haverá ajuda”, como houve no golpe de 1964. Como se não bastassem os graves problemas estruturais acumulados, agora temos que lidar com os riscos reais de uma ruptura institucional? Nesse contexto, qual será a qualidade do debate público neste ano?