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Sem dinheiro

Famílias endividadas dificultam a retomada sustentada da economia

A crise da democracia liberal é mundial, porém precisamos encarar o fato de que o baixo desempenho da economia brasileira revelou que não estávamos no caminho do crescimento sustentado e da prosperidade coletiva

Publicado em 06 de Fevereiro de 2023 às 00:20

Públicado em 

06 fev 2023 às 00:20
Rodrigo Medeiros

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Rodrigo Medeiros

medrodrigo@gmail.com

Dados disponibilizados pelo Fundo Monetário Internacional revelam que o Brasil cresceu abaixo da economia mundial nos últimos anos. A inflação é um fenômeno global desde meados de 2020, atingindo inclusive as economias desenvolvidas. Nesses países, as taxas básicas de juros encontram-se abaixo de 5% ao ano, enquanto no Brasil ela atinge o patamar de 13,75% ao ano. Estamos falando de países relativamente mais endividados e com taxas básicas de juros menores.
Recentemente, uma matéria veiculada no Jornal Nacional, da Rede Globo, mostrou que a pandemia de Covid-19, a alta das taxas de juros e o consumo reprimido foram fatores que contribuíram para o aumento do endividamento das famílias brasileiras. Essa matéria foi publicada no portal G1, no dia 20 de janeiro de 2023. Sabemos que o consumo é uma importante fonte de crescimento da nossa economia, cuja informalidade atinge quase 40% dos ocupados.
Com base no levantamento da Confederação Nacional do Comércio, a síntese da matéria pode ser expressa no fato de que “o endividamento das famílias brasileiras bateu recorde em 2022”. Trata-se do maior percentual de famílias endividadas desde o início da série histórica, há dez anos. Endividadas estiveram quase 80% das famílias, sendo que o percentual de inadimplentes se aproximou de 30%. As perspectivas da economia foram negativamente afetadas.
Há questões globais e históricas que merecem ser discutidas, pois muitas teses buscam explicar como chegamos até o presente. Das crises de representação nas democracias liberais após a dissolução da União Soviética, no final de 1991, às emergências de extremistas de direita no século XXI, muito já foi escrito e publicado. Destaco, nesse sentido, a palestra da professora Clara Mattei, da New School for Social Research, de Nova York.
A palestra sobre como os economistas inventaram a austeridade e pavimentaram o caminho para o fascismo está disponível no canal New Economic Thinking, do Youtube, desde 12 de outubro de 2022. Em síntese, as políticas sociais são afetadas negativamente, gerando impactos adversos na coesão social e ressentimentos. Para Mattei, as políticas de austeridade buscam preservar as relações de classe no capitalismo e suas relações sociais de poder. A professora cita o fim da Grande Guerra, em 1918, como um marco dessas políticas.
Endividamento do consumidor cai em outubro, primeira vez em 2019
Endividamento do consumidor  Crédito: Valter Campanato | Agência Brasil
Segundo Mattei, desde então, os governos têm enfrentado as recorrentes crises do capitalismo com políticas de austeridade. Cortes de remuneração do trabalho, a busca obsessiva pelo equilíbrio fiscal, em contextos recessivos, e cortes nos auxílios públicos têm sido utilizados como solução, mesmo com efeitos devastadores sobre o bem-estar socioeconômico.
De acordo com o mais recente relatório da Oxfam, “nos últimos 10 anos, os bilionários dobraram sua riqueza, ganhando quase seis vezes mais do que o aumento do patrimônio dos 50% mais pobres”. Privilégios fiscais e brechas há décadas beneficiam os mais ricos em diversos países, concentrando riquezas no topo e socializando prejuízos em momentos de crise. Entre nós, brasileiros, a insegurança alimentar avançou para mais da metade da população e a fome atingiu 33 milhões de pessoas em 2022.
Afinal, qual foi mesmo o resultado das políticas de austeridade após a crise financeira global de 2008, logo depois do breve momento keynesiano? A emergência da extrema-direita na Europa e nas Américas? A crise da democracia liberal é mundial, porém precisamos encarar o fato de que o baixo desempenho da economia brasileira revelou que não estávamos no caminho do crescimento sustentado e da prosperidade coletiva.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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