Matéria publicada na Folha de S.Paulo, no dia 20 de abril, assinada por Fábio Pupo, trouxe números preocupantes sobre os efeitos da inflação para os consumidores brasileiros. Em síntese, mais da metade da população cortou despesas nos últimos seis meses diante dos preços em alta, segundo a pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) à FSB Pesquisa.
De acordo com a pesquisa, “54% das pessoas consideram estar em situação financeira muito afetada pela inflação e 64% cortaram o consumo de bens ou serviços nos últimos seis meses devido ao aumento de preços”. Os mais pobres são os mais afetados, identificou a pesquisa, em um contexto de aumentos da pobreza e da insegurança alimentar. A queda no poder de compra das famílias foi significativa.
O rendimento real médio do trabalho não tem dado conta do processo inflacionário no Brasil e tal fato explica, em boa medida, o baixo desempenho esperado da economia para 2022, pois o consumo é um importante motor da atividade econômica. Ainda que as cadeias de suprimentos se recuperem efetivamente da crise pandêmica, que não terminou, a perda do poder de compra afetará a atividade econômica no Brasil.
Um ponto de preocupação destacado na matéria diz respeito às expectativas de que a inflação permanecerá elevada, algo que acrescentará limitações às intenções de compras. Em março, a inflação em doze meses, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 11,30%. Segundo o Datafolha, 53% das residências brasileiras passam o mês com menos de dois salários mínimos, sendo que 35% acusam escassez de alimentos.
A revisão das previsões de crescimento para o ano do Fundo Monetário Internacional (FMI) deveria chamar a atenção para o fato de que o Brasil tem ficado para trás. O FMI estima que o Brasil crescerá 0,8% em 2022, ao passo que a América Latina e o Caribe poderão crescer 2,5% e o produto mundial poderá aumentar 3,6%. A argumentação básica do desempenho brasileiro se ampara nas altas dos preços das commodities (petróleo, grãos e minérios), que já estão empurrando a inflação para cima e deteriorando o poder de compra dos salários.
O Banco Central brasileiro, por sua vez, vem elevando a taxa básica de juros desde o ano passado. Como essa inflação é um fenômeno internacional, trata-se de um equívoco aumentar continuamente a taxa de juros básica doméstica para combater a inflação de custos importada. Afinal, a inflação continua avançando, apesar da alta dosagem do aperto monetário brasileiro.
Incertezas sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia acrescentam dúvidas e dilemas para os formuladores de políticas públicas. De acordo com Pierre-Olivier Gourinchas, diretor de Pesquisa do FMI, em artigo publicado no blog da instituição, em 19 de abril, “a guerra se soma à série de choques de oferta que atingiram a economia global nos últimos anos”. Sanções impostas à Rússia afetam a economia global.
Segundo Gourinchas, “a escalada de preços dos alimentos e combustíveis prejudicará as famílias de baixa renda em todo o mundo, inclusive nas Américas e no resto da Ásia”. O economista espera que a pandemia deixe algumas marcas permanentes nas economias não desenvolvidas e destacou que “a inflação se tornou um perigo claro e imediato para muitos países”.
Em síntese, alertou o diretor do FMI, “projetamos agora que a inflação permanecerá elevada por muito mais tempo”. Nesse sentido, ele ponderou que há riscos de que “as expectativas de inflação se afastem das metas de inflação dos bancos centrais, provocando uma resposta mais agressiva de aperto monetário por parte das autoridades”.
Refletindo a gravidade do momento histórico, Gourinchas afirmou ainda que “a alta dos preços dos alimentos e combustíveis também pode elevar consideravelmente a perspectiva de agitação social nos países mais pobres”. A invasão da Ucrânia pela Rússia aumentou o risco de uma fragmentação permanente da economia global em blocos geopolíticos com padrões tecnológicos distintos.
Conforme avaliou o diretor do FMI, “o aumento das taxas de juros e a necessidade de proteger as populações vulneráveis contra os altos preços dos alimentos e da energia dificultam a manutenção da sustentabilidade fiscal”. Tal fato também dificulta o avanço de políticas públicas que enfrentem a transição climática, “enquanto atrasos em lidar com a crise do clima tornam as economias mais vulneráveis aos choques de preços das commodities, alimentando a inflação e a instabilidade econômica”.
Pela imprensa, soubemos que uma das principais preocupações de alguns parlamentares na Câmara dos Deputados, neste ano eleitoral, diz respeito à possível proibição do Supremo Tribunal Federal (STF) da continuidade dos pagamentos das emendas de relator, a fonte dos recursos do “orçamento secreto”, um esquema de R$ 16 bilhões de “governabilidade” revelado pelo Estadão. Em tempos tão sombrios, devemos questionar se basta que as instituições apenas “continuem funcionando” para que tenhamos um futuro melhor como nação.