O celebrado acordo entre o Mercosul e a União Europeia, após décadas de negociações, tem sido apresentado por seus defensores como uma grande conquista diplomática e comercial. Contudo, a análise mais atenta de seus termos revela um cenário bem menos auspicioso.
Trata-se de um novo acordo que tende a aprofundar as nossas desigualdades econômicas, agravar problemas ambientais e reforçar a lógica de dependência estrutural que pouco contribui para um projeto soberano de desenvolvimento.
O acordo vem sendo criticado por diversos especialistas brasileiros como a continuidade das políticas de liberalização comercial que, nas últimas décadas, contribuíram de forma decisiva para a desindustrialização do país. Em vez de promover um salto tecnológico ou fortalecer cadeias produtivas de maior valor agregado, o Brasil opta por aprofundar sua inserção internacional como um fornecedor de commodities agrícolas e minerais, em condições desfavoráveis.
Para além da promessa genérica da geração de novos empregos, em sua maioria de baixos salários e de reduzido conteúdo tecnológico, o que se projeta é um agravamento da dependência econômica baseada na exportação de matérias-primas de baixo valor agregado.
Em síntese, a economia brasileira se tornará ainda mais exposta à concorrência externa, sem garantias concretas de ganhos sistêmicos de produtividade, inovação ou adensamento industrial.
Do ponto de vista ambiental, os riscos são igualmente expressivos. Ao ampliar o acesso ao mercado europeu para carnes, soja e outros produtos agrícolas de elevado impacto ambiental, o acordo tende a estimular a expansão da fronteira agrícola sobre biomas sensíveis, como a Amazônia e o Cerrado. Paralelamente, pequenos agricultores tanto no Mercosul quanto na União Europeia enfrentarão pressões competitivas mais intensas, aprofundando processos de concentração econômica.
Para o Mercosul, a segurança alimentar e nutricional tende a ocupar um lugar secundário. A priorização das exportações de commodities agravará as vulnerabilidades alimentares de populações que já convivem com altos níveis de insegurança nutricional, além de pressionar os preços internos dos alimentos, afetando diretamente o custo de vida da população e o mal-estar social.
Paulo Nogueira Batista Jr. e Manoel Casado, em artigo publicado no site Outras Palavras em 18 de dezembro de 2025, levantaram uma questão central para o debate: “O Brasil, severamente desindustrializado, regredindo em marcha forçada à condição de país primário-exportador, volta a adotar o evangelho do livre comércio - justo na hora em que economias centrais e países emergentes relevantes reduzem o grau de exposição externa de suas economias, adotam medidas de proteção contra a concorrência estrangeira e elevam seu nível de autonomia produtiva e tecnológica”. Cui bono?
Segundo os autores, o acordo ironicamente apelidado de “carros por vacas” mantém limitações severas justamente sobre produtos estratégicos da pauta brasileira, como carne bovina, frango e etanol, todos submetidos a cotas restritivas. Produtos básicos como soja, café verde e minério de ferro já gozavam de tarifa zero antes mesmo da assinatura do acordo.
Além disso, a União Europeia reserva para si o direito de instaurar investigações que podem suspender as condições preferenciais de acesso ao seu mercado, obrigando inclusive os países do Mercosul a adotarem padrões europeus de produção.
Caso as importações de um produto agrícola considerado sensível aumentem em 5%, na média de três anos, a União Europeia poderá abrir investigação para avaliar a possível suspensão dos benefícios. Penalidades serão aplicadas de forma muito rápida, em até três meses, algo que dará muito pouco tempo aos países do Mercosul para se explicarem e se defenderem. Estamos de fato diante de um quadro de grandes assimetrias.
Ainda assim, o Parlamento Europeu aprovou, no dia 21 de janeiro de 2026, uma decisão para exigir que, antes de um voto de ratificação, o acordo seja levado para a Corte de Justiça da Europa. De acordo com Jamil Chade, em sua coluna no ICL Notícias do mesmo dia, “nas horas que antecederam ao voto, mais de mil tratores cercaram o Parlamento”. Portanto, a assinatura do acordo desigual não representa a sua entrada imediata em vigor.
Em seu conhecido clássico ‘As veias abertas da América Latina’ (1971), Eduardo Galeano afirmou que “a estrutura econômica das colônias ibéricas nasceu subordinada ao mercado externo e, em consequência, centralizada em torno do setor exportador, que concentrava renda e poder”.
Esses mercados coloniais cresceram como apêndices da Europa. Segundo Galeano, “tampouco em nosso tempo a existência de centros ricos do capitalismo pode explicar-se sem a existência das periferias pobres e submetidas: uns e outras integram o mesmo sistema”. Aprendemos algo com os clássicos intérpretes da nossa história?
Em sua obra clássica ‘Formação econômica do Brasil’ (1959), Celso Furtado analisou o Tratado de Methuen (1703), “acordo de panos e vinhos”, como o momento que moldou o subdesenvolvimento português e a dependência brasileira. O ouro extraído das minas brasileiras não ficava em Portugal. Ele era utilizado para cobrir o déficit comercial com a Inglaterra.
Methuen foi o acordo que consolidou a periferia de Portugal no sistema econômico mundial, retirando-lhe a chance de se industrializar e drenando a riqueza do ouro brasileiro para o centro dinâmico de então.