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Banco Central

Política monetária independente de quem?

A noção de que a independência do banco central é sacrossanta remonta à contrarrevolução monetarista de Milton Friedman na década de 1970. Nesse sentido, reformas regressivas do lado da oferta seriam necessárias para aumentar a eficiência econômica

Publicado em 10 de Junho de 2024 às 01:30

Públicado em 

10 jun 2024 às 01:30
Rodrigo Medeiros

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Rodrigo Medeiros

medrodrigo@gmail.com

O artigo de opinião publicado no portal Project Syndicate, no dia 20 de maio, do professor emérito Robert Skidelsky, da Warwick University e membro da Câmara dos Lordes britânica, trouxe reflexões relevantes. Em síntese, destaco que devemos abandonar a noção ultrapassada de que as políticas fiscal e monetária podem ser mantidas separadas.
Segundo afirmou Skidelsky, “se quisermos que os governos sejam responsabilizados pelo investimento e pelo emprego, eles deverão também controlar as taxas de juros”. O professor citou a principal conclusão do inquérito da Comissão dos Assuntos Econômicos da Câmara dos Lordes sobre o fracasso do Banco de Inglaterra em prever a pior inflação dos últimos 40 anos.
A taxa de inflação anual do Reino Unido atingiu o máximo de quatro décadas, 11,1% em outubro de 2022, enquanto os preços globais subiram 22% nos últimos três anos. Inadequadas ferramentas de previsão, pensamento de grupo fechado e um mandato cada vez mais vago foram temas citados no inquérito. Há ainda preocupações sobre o “poder não eleito” dos banqueiros centrais.
Uma enorme transferência de poder dos representantes eleitos para os funcionários não eleitos foi feita nos últimos 30 anos em diversos países. De acordo com Skidelsky, “dado que as taxas de juros afetam não apenas o valor do dinheiro, mas também o desemprego, o crescimento e a distribuição, poderia argumentar-se que a política monetária, tal como a política fiscal, deveria ser gerida por governos que prestassem contas aos eleitores”.
A noção de que a independência do banco central é sacrossanta remonta à contrarrevolução monetarista de Milton Friedman na década de 1970. Nesse sentido, reformas regressivas do lado da oferta seriam necessárias para aumentar a eficiência econômica e políticas de taxas de juros manteriam a estabilidade de preços.
No Reino Unido, o “índice de miséria” (a taxa de desemprego mais a taxa de inflação) foi de 6,6% durante a era keynesiana (1947-1973) e de 7,8% na era da independência do banco central (1997-2019). Desde 2020, o índice subiu para 9%, com um mercado de trabalho muito “flexibilizado” (precário) em relação ao período keynesiano. As taxas de crescimento nos dois períodos foram de 2,8% e 2%, respectivamente. Cui bono?
Para Skidelsky, é ainda possível argumentar que “a baixa inflação que caracterizou a Grande Moderação teve menos a ver com as políticas do banco central do que com a entrada de milhões de trabalhadores asiáticos com baixos salários no mercado de trabalho global”. Conhecemos bem esse fenômeno no Brasil a partir da nossa desindustrialização precoce.
Banco Central do Brasil
Banco Central do Brasil Crédito: Marcello Casal Jr / Agência Brasil
Como a política econômica afeta o desempenho econômico, Skidelsky ressaltou que “é difícil argumentar que as políticas fiscal e monetária devem ser mantidas separadas”. Os bancos centrais controlam a oferta monetária através das taxas que emprestam aos bancos comerciais. Tal fato estrutura as taxas de juros de longo prazo, influenciando os níveis de investimento e ocupação.
No Brasil, o regime de metas de inflação foi instituído em janeiro de 1999. Em 293 meses, quase 25 anos, a inflação oficial medida pelo IPCA ficou abaixo de 3% ao ano em apenas 22 ocasiões. A matéria da revista Carta Capital, edição de número 1313, de 5 de junho de 2024, assinada por Carlos Drummond, traz uma boa discussão sobre o assunto.
A matéria destaca a denúncia feita por Eduardo Moreira, do Instituto Conhecimento Liberta, de que há “manipulação escabrosa das projeções de inflação elaboradas pelas instituições financeiras, sob supervisão do Banco Central, com ganhos fabulosos para especuladores e rentistas e perdas monumentais para as políticas públicas e a maioria da população”. A nossa frágil democracia ainda enfrenta heranças de um período recente sombrio.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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