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Meio ambiente

Por que devemos, sim, politizar a emergência climática

Devemos reconhecer que estamos enfrentando, em escala planetária e com repercussões regionais distintas, o risco existencial provocado pela emergência climática. Saberemos tirar lições da catástrofe no Rio Grande do Sul?

Publicado em 27 de Maio de 2024 às 02:05

Públicado em 

27 mai 2024 às 02:05
Rodrigo Medeiros

Colunista

Rodrigo Medeiros

medrodrigo@gmail.com

Somos informados pelos meios de comunicação sobre a dramática situação no Rio Grande Sul, sem saber quando algo do gênero poderá se repetir, guardadas as devidas proporções, em outras unidades federativas brasileiras. Nos estados do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e de Santa Catarina, por exemplo, são recorrentes os problemas de alagamentos e prejuízos provocados por fortes chuvas.
Nesse sentido, o artigo do colunista Bernardo Mello Franco, publicado no jornal O Globo, em 8 de maio, é capaz de provocar reflexões necessárias. O jornalista defendeu que “é preciso, sim, politizar a tragédia climática”. Afinal, enfatizou Mello Franco, “escolhas políticas estão na origem da emergência climática”.
Restam poucas dúvidas de que o negacionismo climático precisa ser combatido, pois, segundo o jornalista, “governantes que não investem em prevenção contribuem para ampliar os desastres”. A atual gestão da cidade de Porto Alegre é citada no artigo como um exemplo a não ser seguido.
Em relação ao governador gaúcho, Mello Franco mostrou que ele “patrocinou o desmonte da legislação ambiental do estado”. O jornalista completou dizendo que “aprovadas em 2019, as mudanças afrouxaram as regras de licenciamento, liberaram o corte de árvores nativas, reduziram a proteção de rios e nascentes”.
Ainda neste ano de 2024, o governador gaúcho, acrescentou o jornalista, “sancionou outra lei que permitiu a construção de barragens para o agronegócio em áreas de proteção permanente”. Não se trata de uma obra isolada, pois, de acordo com Mello Franco, “o descaso com os riscos climáticos se estende à bancada federal do Rio Grande do Sul”.
Devemos reconhecer que estamos enfrentando, em escala planetária e com repercussões regionais distintas, o risco existencial provocado pela emergência climática. Saberemos tirar lições da catástrofe no Rio Grande do Sul? Haverá mudança de mentalidades na política e na condução de negócios?
Matéria do jornal digital Matinal, de 16 de maio, assinada por Tiago Medina, trouxe a informação de que a Prefeitura de Porto Alegre contratará a consultoria norte-americana Alvarez & Marsal. O prefeito afirmou, segundo consta na matéria, que “temos que ter uma consultoria pensando sobre tudo, hospital de campanha, questão da saúde – temos 18 unidades de saúde que estão sob água –, escolas sob água, o estrago das vias”.
Os serviços seriam gratuitos por dois meses, porém ainda não está claro qual será o valor da consultoria após esse período. Essa consultoria trabalhou na reestruturação de Nova Orleans, em 2005, após a passagem do furacão Katrina, que devastou a cidade e matou mais de 1.800 pessoas. Conforme destacou a matéria, “os trabalhos de reconstrução receberam inúmeras críticas devido ao seu caráter de gentrificação”.
Porto Alegre ainda tem várias regiões inundadas após cheia do rio Guaíba
Regiões inundadas após cheia do rio Guaíba em Porto Alegre Crédito: Foto: Gilvan Rocha/Agência Brasil
A Alvarez & Marsal informou ter chegado em 2004 ao Brasil e que conta com escritórios em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo a matéria, o ex-juiz Sergio Moro trabalhou na consultoria, que chegou a ter quase 80% do seu faturamento vindo de firmas que foram alvos da Lava Jato, algo que motivou uma investigação do Tribunal de Contas da União.
Diogo Demarco, professor da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), consultado pela matéria, ponderou que “há uma inteligência aqui do estado, particularmente em Porto Alegre, que poderia ser mobilizada para esse esforço de apoio e reconstrução desta tragédia que temos vivido”. Qual seria o motivo para não aproveitar profissionais gabaritados que vivem na cidade e conhecem profundamente os seus problemas?
Ciclos extrativistas predatórios marcaram o processo de colonização do nosso território. Segundo Darcy Ribeiro, no livro ‘O povo brasileiro’ (1995), a metáfora dos “moinhos de gastar gente” se aplica muito bem ao nosso processo de formação como país. Está mais do que na hora de fundarmos uma sociedade mais democrática e protetora do ser humano a partir do princípio da precaução ambiental.

Rodrigo Medeiros

E professor do Instituto Federal do Espirito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade.

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