A recente revelação de que parlamentares brasileiros assinaram, desde 2019, pelo menos duas mil proposições redigidas por lobistas acende um alerta grave para a saúde da nossa democracia. Segundo investigação publicada pelo UOL, no dia 20 de outubro de 2025, a partir da análise de 345 mil documentos, foram detectadas “digitais” de lobistas em 2.176 textos apresentados como proposições de deputados e senadores.
Embora a atuação de grupos de interesse junto ao poder público não seja, em si, algo ilegal ou necessariamente imoral, o que a reportagem do UOL expõe é um uso sistemático dessa atuação que contorna a transparência e subverte o papel representativo do Parlamento. Um jogo político muito desequilibrado pelo poder econômico.
Não se trata de uma questão de demonizar qualquer participação da sociedade organizada, mas de garantir que o jogo seja justo, com regras claras, rastreabilidade e o devido equilíbrio de vozes, considerando os interesses da população mais vulnerável. O jogo político é historicamente muito desequilibrado pelo poder econômico no Brasil.
Leis e emendas podem privilegiar setores econômicos específicos (como agronegócio, indústria e apostas, por exemplo), em detrimento de políticas sociais, ambientais ou de justiça distributiva. A reportagem do UOL escrita por Tiago Mali e Julia Affonso citou exemplos de propostas vindas de sindicatos da indústria farmacêutica, associações da indústria alimentícia e até de empresas de apostas.
A confiança nas instituições democráticas é corroída pelo poder econômico. Quando parlamentares assumem leis escritas por lobistas, o seu papel como representante eleito perde sentido. Proposições redigidas por lobistas revelam uma profunda crise de representatividade. Um Parlamento que aceita legislar a partir de textos prontos por escritórios de advocacia e entidades privadas não cumpre sua função democrática.
Nesse sentido, os episódios registrados por uma investigação jornalística abrangente publicada no UOL reacendem um debate fundamental. Até que ponto a democracia brasileira opera sob a lógica do interesse público e até que ponto ela está subordinada aos grandes interesses econômicos organizados?
Democracias modernas convivem com um paradoxo. Embora todos os cidadãos tenham formalmente os mesmos direitos políticos, há desigualdades no acesso a parlamentares, na capacidade de financiar estudos técnicos e na contratação de consultorias. Tal situação cria um cenário no qual todos podem participar, porém apenas alguns são realmente ouvidos e levados em conta.
Soubemos da Operação Poço de Lobato no dia 27 de novembro de 2025, que revelou um grande esquema de sonegação fiscal. A colunista Raquel Landim, em edição digital do Estadão naquele mesmo dia, afirmou que a operação da Refit irá secar o caixa 2 de partidos do Centrão.
Fraudes da Refit não atingem apenas o fisco e a economia. Elas atingem a própria integridade do financiamento político no Brasil ao expor como grupos privados e empresas de fachada podem abastecer partidos com dinheiro criminoso. Trata-se de um caso emblemático de crime organizado do “andar de cima”.
Landim chamou a nossa atenção para o entrelaçamento entre poder econômico, sonegação fiscal e financiamento político ilegal. Em um país no qual o financiamento eleitoral e a corrupção são eixos centrais de crises políticas, esse tipo de operação tem o potencial de revelar como certos grupos econômicos conseguem influenciar a política nos bastidores.
A operação mirou o grupo Refit, acusado de sonegação fiscal bilionária, com dívidas fiscais estimadas em R$ 26 bilhões e movimentações que ultrapassariam R$ 70 bilhões em um único ano. A operação nos alerta sobre as vulnerabilidades do sistema político brasileiro. Qual tem sido a resposta do reformismo regressivo brasileiro em relação aos devedores contumazes?