Matéria assinada por Cássia Almeida, publicada no jornal O Globo, no dia 19 de junho, “O preço do retrocesso”, trouxe uma análise de indicadores que sofreram retrocessos no Brasil. De acordo com a jornalista, “o Brasil voltou ao passado na economia, no bem-estar da população, na educação e no meio ambiente, exibindo indicadores que remontam há até 30 anos”. A perplexidade revelada em números nos remete ao questionamento da nossa visão comum de progresso.
A pandemia de Covid-19 e o desmonte de políticas públicas são destacados logo no início da matéria. Voltamos a conviver com os crescimentos da fome, da pobreza, da evasão escolar, do desmatamento e da inflação. Esse quadro distópico ameaça o futuro do Brasil. Para se ter uma ideia, o Produto Interno Bruto (PIB) atual equivale ao de 2013. Segundo consta na matéria, “a produção de bens de consumo duráveis (carros e eletrodomésticos) está igual à de 18 anos atrás”. De acordo com as estimativas apresentadas, somente em 2029 voltaremos ao maior valor real do PIB per capita, de R$ 44 mil, atingido em 2013.
Retrocessos sociais se acumularam nos últimos anos. A fome, por exemplo, atinge 33 milhões de brasileiros, número equivalente ao de 1992. Não podemos esquecer que o Brasil havia deixado o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2014. Testemunhamos também, destacou a matéria, “o forte empobrecimento de grande parte da população”. O desmonte dos programas de segurança alimentar e proteção social vem ocorrendo desde a promulgação da Emenda Constitucional 95/2016, que versa sobre o teto dos gastos primários.
A renda média do trabalho é equivalente à de 2011 em um contexto de elevada inflação de alimentos e combustíveis. Políticas de desmonte dos estoques públicos de alimentos e de precificação internacional dos combustíveis revelam que parte dos problemas inflacionários que vivemos foram criados domesticamente, com um articulado apoio organizado por quem mais se beneficiou. Essas políticas reforçaram a concentração de riquezas no topo e impulsionaram o crescimento da pobreza e a elevação da insegurança alimentar na base.
O rendimento real médio do trabalho não tem dado conta do processo inflacionário no Brasil e tal fato explica, em boa medida, o baixo desempenho esperado da economia, pois o consumo é um importante motor da atividade econômica doméstica. Conforme indicou a matéria, o consumo das famílias caiu ao patamar de 2015 em um contexto de precarização do mercado de trabalho.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa registrada de informalidade foi de 40,1% para a população ocupada no trimestre terminado em março de 2022, sendo que a informalidade atingiu 39,1% no mesmo trimestre de 2021. A subutilização da força de trabalho está em dois dígitos.
A jornalista escutou especialistas que convergiram para o fato de que a “pandemia provocou gargalos na produção global, secas e geadas afetaram a produção de alimentos e de energia elétrica, e a instabilidade política fez o dólar subir, contaminando os preços internos”.
Nesse sentido, elevações contínuas da taxa básica de juros são muito pouco eficazes no combate a esse tipo de processo inflacionário. De acordo com um especialista escutado pela matéria, “a fome cresce em velocidade desproporcional ao cenário de crise e pandemia, com a péssima condução da política social”.
Desde meados da década de 1980, o processo de desindustrialização prematura se intensificou, refletindo a perda relativa de dinamismo da economia brasileira. Paralelamente, o crescimento do setor terciário não foi acompanhado por ganhos de produtividade da economia. Segundo a jornalista, “a indústria é o setor que mais retrocedeu em termos de quantidade produzida, atualmente similar à de 2009, de acordo com as Contas Nacionais Trimestrais do IBGE”.
Refletindo a gravidade do momento histórico, Pierre-Olivier Gourinchas, diretor de Pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI), em artigo publicado no blog da instituição, no dia 19 de abril de 2022, afirmou que a alta dos preços dos alimentos e combustíveis pode elevar consideravelmente a perspectiva de agitação social nos países.
O Brasil vem desmontando políticas públicas desde 2016 pela via do reformismo regressivo. A pandemia ainda vigente apenas piorou o que já estava ruim.