Há planos que nascem para cumprir tabela e há planos que, se levados a sério, podem mudar o destino de um lugar. O Plano Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação do Espírito Santo (PCTI-ES) pertence ao segundo grupo. Ele não é apenas um documento cheio de metas e indicadores; é uma tentativa de colocar a ciência e a inovação no centro da estratégia de desenvolvimento capixaba.
O Espírito Santo decidiu olhar para 2035 com sete eixos estratégicos que vão da governança à popularização da ciência. É um cardápio ambicioso: descentralizar a infraestrutura científica, formar mais mestres e doutores, criar ambientes de inovação, internacionalizar empresas, estimular a transformação digital e, talvez o mais ousado, fazer da ciência um assunto popular. Em outras palavras, transformar conhecimento em desenvolvimento.
O plano tem pontos fortes que merecem ser celebrados. Foi construído de forma participativa, com oficinas e escutas em várias regiões, o que dá legitimidade e ajuda a enfrentar o velho problema da concentração na Grande Vitória.
Também aposta na internacionalização, e não é discurso vazio: startups capixabas já ganharam espaço na Europa e reconhecimento nacional.
Mas há pedras no caminho. O financiamento ainda é tímido: cerca de 1% da receita estadual vai para Ciência, Tecnologia e Inovação, muito abaixo de São Paulo, que investe mais de 4%. Sem ampliar essa base, o risco é que o plano vire promessa.
Outro desafio é inserir mestres e doutores em projetos privados, especialmente fora dos grandes centros. E há a questão da governança: é preciso criar estruturas permanentes, independentes e técnicas, capazes de sustentar o plano mesmo em mudanças de governo.
O PCTI não é uma ilha. Ele se conecta diretamente ao Plano ES 500 Anos, que projeta o futuro do Estado até 2035. Lá, a palavra-chave é complexidade econômica: aumentar a sofisticação da estrutura produtiva, diversificar cadeias e gerar empregos de qualidade.
O PCTI é o braço científico e tecnológico dessa agenda. Sem ciência e inovação, não há como dar o salto de complexidade que o Espírito Santo precisa para sair da dependência de setores tradicionais e se posicionar em áreas como inteligência artificial, bioeconomia e transição energética.
E aqui está o ponto crucial: o PCTI precisa atravessar o calendário eleitoral. Em 2026 teremos eleições, e é natural que os ventos da política tragam mudanças. Mas o plano não pode ser refém de disputas eleitorais. Ele precisa continuar sendo tocado na gestão 2027/2030, qualquer que seja o resultado. Ciência e inovação não podem ser políticas de governo; precisam ser políticas de Estado.
O Espírito Santo tem diante de si uma estrada recém-pavimentada. Os marcos estão definidos, os objetivos claros. O desafio é não deixar que essa estrada se perca em desvios políticos ou falta de combustível financeiro.
Se o plano for levado a sério, o Estado pode se tornar exemplo nacional de como ciência e inovação são capazes de redesenhar o futuro de um povo.
Em tempos de incerteza, apostar na ciência é apostar no que há de mais sólido. O PCTI-ES é uma oportunidade rara de transformar o Espírito Santo em um território mais complexo, resiliente e inclusivo. O futuro não espera – e o plano já está pronto para ser seguido.