O modelo de desenvolvimento econômico implementado no Espírito Santo a partir dos anos 1960 se deu nas seguintes bases: a cafeicultura perdeu espaço para o surgimento de uma indústria produtora e exportadora de commodities, num primeiro momento, e para a expansão de serviços e comércio pouco sofisticados, num segundo momento.
Esse modelo permitiu que o estado passasse de uma condição econômica e social precária, “Nordeste sem Sudene”, para uma condição econômica e social intermediária, “Sudeste com incentivos”. Não temos dúvidas de que o Espírito Santo chegou aonde chegou graças a esse modelo de desenvolvimento econômico!
Contudo, esse modelo está dando sinais de esgotamento. Uma evidência disso está no Gráfico 1, que mostra a variação do PIB do Espírito Santo e do Brasil entre os anos 1960 e os anos 2010. Depois do crescimento pujante que o estado experimentou nos anos 1960 e 1970 o seu PIB teve taxas relativamente modestas de expansão nos anos 1980 – a década “perdida” para o Brasil – e anos 1990 – período em que o Brasil passou por reformas estruturais e liberalizantes. Nos anos 2000, impulsionado pelo boom de preço internacional de commodities, o Espírito Santo viu seu PIB crescer a uma boa média anual de 5,1%. Nos anos 2010 o PIB estadual teve variação negativa, conforme Gráfico 1, cuja explicação detalhamos em texto anterior.
Em outras palavras, após duas décadas de crescimento “chinês”, o Espírito Santo viu seu crescimento desacelerar até chegar a taxas negativas. Isso é preocupante e sinaliza que o modelo de desenvolvimento implantado no estado a partir dos anos 1960 “bateu no teto” (ou está próximo disso). E isso não necessariamente é ruim, pois pode ser encarado como uma oportunidade e um desafio para se construir consenso e pavimentar uma nova estrada para o futuro capixaba.
Para mudar esse histórico recente de baixo crescimento do Espírito Santo, apresentamos uma proposta de política industrial local que tenha como cerne o aumento da sua complexidade econômica. Pesquisas recentes têm mostrado que quanto mais desenvolvido é um país ou uma região, maior é a sua complexidade econômica, definida pela ubiquidade e a diversidade de produtos encontrados na sua pauta exportadora.
Quanto mais uma economia for capaz de produzir bens não ubíquos – os bens que poucos têm capacidade de produzir – e de sustentar uma pauta de exportações diversificada, maior será a sua complexidade. Desenvolvimento é produzir bens e serviços cada vez mais sofisticados, tecnológica e mercadologicamente, que exigem técnicos e especialistas variados, com alto nível de educação e salários elevados.
Algumas atividades econômicas como mineração, agricultura, siderurgia, celulose, e construção civil geralmente – mas nem sempre – tem baixa complexidade. Nesses casos o produto não é complexo, mas o processo produtivo (“como”) pode ser complexo. Exemplo: o processo de extração do petróleo terrestre não é complexo, mas bombear petróleo a 5 mil metros abaixo do nível do mar é complexo.
A complexidade não está apenas no bem ou serviço que é produzido. Na maioria das vezes, a complexidade está na criação (“quem”) e domínio de ativos chave e intangíveis da cadeia de valor. Em outras situações, está na qualidade do processo produtivo (“como”) que envolve maior grau de transformação industrial e menor grau de montagem.
Em síntese, o que importa são os benefícios gerados em todas as etapas da cadeia de valor que envolve complexidade. Esses benefícios são fáceis de mensurar: é um mix de empregos com altos salários, alta parcela da P&D em relação ao faturamento, volume substantivo de patentes e domínio de ativos-chave e intangíveis como marcas, P&D e canais de distribuição.
Então, para aumentar a complexidade da estrutura produtiva do Espírito Santo não é preciso começar do zero: é expandir as exportações dos produtos que já fazemos e induzir a produção de produtos que não fazemos que são mais relacionados e que compartilham características (ocupações, instituições, infraestrutura, conhecimento) com os quais já produzimos. Exemplo: estimular o aumento da exportação de rochas ornamentais e, ao mesmo tempo, induzir a produção local de máquinas, equipamentos e insumos usados no seu processo de beneficiamento.
Essa política industrial deve ser desenhada em conjunto pelo poder público (papel de coordenador), setor produtivo e centros de pesquisa, e deve conter os seguintes elementos para aumentar a complexidade das principais cadeias produtivas capixabas: i) identificar potenciais para aumento de complexidade; ii) promoção da inovação e criação de vantagens comparativas dinâmicas; iii) atração de investimentos à jusante e à montante dessas cadeias, inclusive estimulando a vinda de estruturas de P&D; iv) capacitar a mão de obra local; v) geração de empregos qualificados e formalizados; vi) modernização produtiva via incorporação de tecnologias digitais; vii) substituição de tecnologias poluidoras por tecnologias mais sustentáveis e baixa emissão de carbono; viii) fomento à exportação.
A palavra-chave no processo de aumento da complexidade econômica é conhecimento. É preciso fomentar a capacidade local de criação de know-how, não apenas a capacidade local de produção. Essa é a grande diferença entre países/regiões ricos e países/regiões pobres. Aumentar a complexidade econômica pode “turbinar” o crescimento do Espírito Santo nas próximas décadas.