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Economia

Enigma dos juros altos: quando o Brasil vai mudar o roteiro?

No fundo, o Brasil parece viver num labirinto onde cada escola aponta uma direção diferente

Publicado em 28 de Março de 2026 às 04:00

Públicado em 

28 mar 2026 às 04:00
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

saviobcacador@outlook.com

Desde 1999, quando o Brasil decidiu seguir o roteiro das metas de inflação, a Selic virou protagonista de uma peça que parece não ter fim. É como se o país tivesse escolhido viver num palco onde o mesmo ato se repete: juros altos, economia contida, e uma plateia de empresários e consumidores sempre à espera de uma virada que nunca chega.
Os economistas ortodoxos contam essa história como quem descreve uma lei da natureza. Para eles, os juros elevados são o reflexo inevitável de um Estado gastador, de um fiscal desarrumado que inspira desconfiança. É como se o mercado fosse um credor severo, exigindo sempre mais caro para emprestar ao governo. Nesse enredo, a solução é simples, ainda que dura: disciplina fiscal, cortes, reformas. Só assim, dizem, o risco cai e os juros podem finalmente descansar.
Mas os pós-keynesianos enxergam outra peça em cartaz. Para eles, não há nada de natural nos juros altos; há, sim, uma convenção social e política, um arranjo que favorece o setor financeiro. No Brasil, o título público mais líquido paga a Selic cheia, transformando-se num refúgio dourado. Bancos e investidores podem estacionar recursos sem risco e colher retornos generosos. É como se houvesse um oásis no deserto: por que se aventurar em projetos produtivos se a sombra fresca da liquidez já oferece conforto?
O sistema de metas de inflação, nesse olhar, é uma marreta usada para ajustar um relógio delicado. Funciona para conter a demanda, mas ignora os choques de custos, o câmbio volátil, os preços administrados. A ortodoxia vê nele um mecanismo de credibilidade; a heterodoxia, um instrumento que cristaliza o rentismo e entope o canal do crédito.
E quanto às saídas? Os ortodoxos insistem que só o ajuste fiscal abre caminho para juros menores. Já os pós-keynesianos falam em coordenação entre política monetária e fiscal, em reduzir deliberadamente o custo da dívida, em investir para gerar crescimento e, assim, melhorar a relação dívida/PIB de forma saudável.
No fundo, o Brasil parece viver num labirinto onde cada escola aponta uma direção diferente. De um lado, a ortodoxia que vê nos juros altos uma punição merecida. Do outro, o pós-keynesianismo que denuncia a Selic como uma instituição moldada para proteger o setor financeiro. E nós, espectadores dessa longa crônica, seguimos perguntando se um dia o país terá coragem de mudar o roteiro — e transformar os juros de vilão em coadjuvante de uma história mais leve.

Sávio Bertochi Caçador

E economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

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