Caminhar pela economia de um estado é, guardadas as proporções, como administrar o patrimônio de uma vida: a regra de ouro é nunca colocar todos os ovos na mesma cesta. No debate sobre o desenvolvimento regional, o conceito de diversificação econômica surge como uma bússola vital.
Em termos didáticos, trata-se da capacidade de uma região de não depender de um único produto ou setor. Um estado com economia diversificada assemelha-se a uma floresta tropical: se uma espécie adoece, o ecossistema sobrevive; já um estado especializado ao extremo funciona como uma monocultura, onde qualquer oscilação no preço de uma única mercadoria no mercado internacional pode levar o sistema inteiro à ruína. Essa diversificação traz resiliência, possibilitando que, quando um setor entra em crise, outro sustente o emprego e a renda da população.
Ao olharmos os dados do IBGE entre 2002 e 2023 (último dado disponível do Sistema de Contas Regionais), percebemos que o Brasil e suas regiões Sul e Sudeste trilharam caminhos distintos e reveladores. O país viu a indústria de transformação crescer de 14% para 15% do Valor Adicionado Bruto (VAB) – que representa a riqueza nova gerada por um setor, uma empresa ou uma região durante um determinado período.
No entanto, o verdadeiro vigor produtivo aconteceu em estados como o Paraná, que saltou de 16% para 21% de participação industrial, e no Rio Grande do Sul, que avançou para os mesmos 21%. Minas Gerais também não ficou para trás, elevando sua base manufatureira de 16% para 19%.
Enquanto São Paulo viu sua participação industrial estagnar, Santa Catarina consolidou-se como o estado com maior vocação fabril: mesmo com uma leve oscilação, mantém impressionantes 23% de seu VAB ancorados na indústria de transformação. Nesse cenário, o Paraná destaca-se como o estado que mais expandiu sua musculatura industrial e diversificou sua base produtiva nas últimas duas décadas.
Em contrapartida, o Rio de Janeiro e o Espírito Santo parecem trilhar caminhos de especialização que acendem um sinal de alerta. No Rio, a economia deu um salto na indústria extrativa, que passou de 10% para 26% do VAB, evidenciando uma “petrolização” da riqueza.
O Espírito Santo vive um paradoxo próprio: enquanto os estados do Sul fortaleceram suas fábricas, o território capixaba viu sua indústria de transformação minguar de 18% para 11%. Em contrapartida, a indústria extrativa subiu de 7% para 10% e o setor de comércio e reparação de veículos (que compreende as atividades de comércio e reparação de veículos; comércio por atacado, exceto veículos; e comércio varejista) deu um salto espetacular, saindo de 7% para 17%.
Esse avanço do comércio não é obra do acaso. Ele reflete a consolidação do estado como um potente “trem pagador” logístico, ancorado especialmente no comércio por atacado. Graças a uma infraestrutura portuária robusta e incentivos fiscais, o Espírito Santo tornou-se o maior importador de carros do país e um centro de distribuição nacional.
Se por um lado esse fenômeno gera arrecadação e dinamismo, por outro ele acentua a redução relativa do chão de fábrica. A consequência de uma indústria de transformação menor é a perda de postos de trabalho que costumam oferecer maiores salários e exigir maior densidade tecnológica, o que pode levar a uma “erosão salarial” e à fuga de talentos formados em nossas instituições de ensino.
Contudo, há uma luz no fim do túnel que sugere uma reação. A presença de gigantes como a Weg, Marcopolo e Agrale, dentre outras, somada ao recente anúncio da fábrica da GWM em solo capixaba – com potencial para produzir 200 mil veículos por ano –, sinaliza que o estado está tentando recalibrar sua rota. Essas empresas trazem consigo a promessa de uma “neoindustrialização”, onde a logística eficiente deixa de ser apenas um fim em si mesma para se tornar o atrativo que traz fábricas para perto do porto.
O Espírito Santo está em uma encruzilhada decisiva. Não se trata de negar a vocação logística e comercial que hoje sustenta as contas públicas, mas de garantir que ela sirva de plataforma para uma base industrial moderna e tecnológica. O desenvolvimento de uma região não se mede apenas pelo volume de mercadorias que transitam por seus corredores, mas pela capacidade de sua gente em transformar essa movimentação em inteligência, inovação e bem-estar social duradouro.