Desde o final de abril, o Brasil e o mundo vêm acompanhando, assustados, aquela que já é considerada a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul. A cada dia os números vão sendo atualizados e até o momento em que escrevo este texto, são mais de 160 mortos, mais de 80 desparecidos e mais de 800 feridos.
Segundo os dados da Defesa Civil gaúcha, o total de pessoas que tiveram de deixar suas residências ultrapassa 581 mil, das quais 72,5 mil estão em abrigos públicos. Até o momento, 464 dos 497 municípios do estado foram afetados, de alguma forma, pelas enchentes. Ao todo, são mais de 82,6 mil pessoas resgatadas. De fato, os números mostram o quão devastadora foi essa tragédia climática.
Do ponto de vista econômico, algumas estimativas mostram que os estragos também serão grandes. Cálculos, ainda preliminares, dão conta de que as enchentes afetaram 94,3% de toda atividade econômica do estado e 91% de suas fábricas, segundo um levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). Três das maiores regiões afetadas (Região Metropolitana de Porto Alegre, Vale dos Sinos e Serra) contribuem com R$ 220 bilhões para a atividade econômica brasileira. Essas três regiões concentram 23,7 mil indústrias que empregam 433 mil pessoas.
O impacto das enchentes na agropecuária gaúcha também deve ser significativo, pois o Estado representa 12,6% do PIB da agricultura nacional. O RS responde por 70% da produção do arroz do Brasil, 45% da produção de trigo, 15% de carnes, 12% da produção de frangos, 17% da produção de suínos, 15% da soja e 4% de milho.
Como um todo, a agropecuária brasileira será um dos setores da economia mais afetados pelas enchentes. Considerando tais impactos, o PIB agropecuário no Brasil pode recuar 3,5% e o governo federal já anunciou algumas medidas para conter impacto na inflação como a importação de arroz.
Um outro levantamento, da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), calcula em mais de R$ 8,9 bilhões os prejuízos financeiros das enchentes. Segundo a CNM, R$ 2,4 bilhões desse prejuízo são no setor público, R$ 1,9 bilhão no setor produtivo privado e R$ 4,6 bilhões especificamente nas habitações destruídas. Nesse sentido, a Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) avalia que a reconstrução do RS deve levar uma década.
A título de comparação, nos Estados Unidos, a passagem do furacão Katrina em 2005 fez o PIB do Estado da Louisina contrair 1,5%, em um ano em que se esperava que crescesse 4%. No caso do RS, a estimativa é que a economia vai se contrair 2%, em vez do crescimento de 3,5% que vinha registrando nos últimos 12 meses até abril.
E no caso brasileiro, o impacto em âmbito nacional será muito maior do que aconteceu no efeito do Katrina nos Estados Unidos, já que a economia gaúcha corresponde a 6,5% do PIB brasileiro e a Louisina representa 1% da economia americana. Um estudo feito pelo Bradesco prevê que o impacto da crise no RS pode reduzir o crescimento do PIB nacional em 0,2 a 0,3 ponto percentual.
RELAÇÃO COM O ES
Mas em relação ao impacto da tragédia no RS na economia capixaba, como avaliar? Uma forma de checar isso é analisando os dados da Balança Comercial Interestadual das Unidades da Federação (UFs) produzidos pelo Conselho Nacional de Políticas Fazendárias (Confaz).
Olhando os dados de notas fiscais de saída de 2017 a 2023, o Espírito Santo exportou cerca de R$ 57 bilhões em mercadorias para o Rio Grande do Sul nesse período. Por outro lado, verificando as notas fiscais de entrada, o ES importou pouco mais de R$ 51 bilhões em mercadorias do RS nesses últimos sete anos. No ano passado o RS ficou na 7ª posição entre as unidades da federação mais parceiras do comércio interestadual capixaba, o que não é pouco dada a distância geográfica entre os dois estados.
Dado o cenário devastador da economia gaúcha, como isso afetará as relações comerciais com o Espírito Santo? Qual será o impacto disso na atividade econômica capixaba? Quanto tempo levará para normalizar essas relações comerciais? Ainda não é possível responder a essas perguntas, mas o prognóstico, conforme as informações anteriores, não é muito positivo.
Além disso, alguns grupos empresariais gaúchos importantes têm feito investimentos relevantes no Espírito Santo nos últimos anos. Estamos falando de Marcopolo, Agrale, Randon, Bertolini, entre outros grupos, que instalaram filiais e/ou centros de distribuição em terras capixabas. Como ficarão esses investimentos anunciados? Qual é o grau de dependência das filiais capixabas das suas matrizes gaúchas?
Em síntese, o impacto da tragédia climática na economia do RS é grande, ainda que estejamos falando de estimativas preliminares. Levantamos algumas questões para reflexão sobre o impacto disso na economia capixaba, que ainda é de difícil mensuração. No momento, cabe registrar nossa solidariedade ao povo gaúcho e parabenizar o governo do Espírito Santo pelo envio de equipes de bombeiros para auxiliar nas operações de resgate e atendimento às vítimas.