O objetivo desse artigo é repercutir os dados do PIB de 2021 do Espírito Santo e vislumbrar, partir deles, oportunidades para o crescimento da economia capixaba nos próximos anos.
Em novembro do último ano, o IBGE divulgou os dados do PIB dos 26 estados e Distrito Federal, e o Instituto Jones dos Santos Neves, por sua vez, divulgou os dados do PIB estadual de 2021. Diante desses dados, uma observação importante: o Sistema de Contas Regionais do IBGE, que apura dados do PIB de estados e municípios, possui uma defasagem de cerca de dois anos. E em 2021, a interrupção das medidas de distanciamento social, adotadas em 2020 por causa da Covid-19, foi determinante para o desempenho da economia naquele ano.
Mas o que esses dados do PIB estadual capixaba de 2021 revelam? O PIB do Espírito Santo cresceu 6% em volume em 2021, nona maior variação entre as Unidades Federativas (UFs). O Estado superou a média do Brasil (4,8%) e a do Sudeste (4,9%), o que não ocorria desde 2018, quando as três áreas registraram crescimento simultâneo. A alta da economia capixaba – acima da média do Brasil e da região Sudeste – reflete a fraca base de comparação representada por 2020, ano em que as necessárias medidas contra a Covid-19 afetaram duramente a atividade econômica nacional e estadual.
Em 2021, o PIB estadual alcançou o patamar de R$ 186,3 bilhões. O desempenho em valores correntes resultou num aumento de participação do PIB capixaba no PIB brasileiro, que alcançou 2,1% em 2021, contra 1,8% em 2020. Apesar do ganho em participação, o Estado manteve-se em 14º lugar no ranking nacional, posição também ocupada nos cinco anos anteriores.
A expansão da atividade econômica capixaba em 2021 refletiu as variações positivas nos setores de serviços (5,5%) e indústria (4,2%), enquanto a agropecuária permaneceu estável, o que resultou em variação real de 4,9% do valor adicionado bruto. Devido à variação mais pronunciada do índice de preços, a indústria aumentou sua participação no valor adicionado estadual passando de 27,4% para 38,3%. Em contrapartida, o setor de serviços, apesar de ter registrado o maior crescimento real, perdeu participação recuando de 68,1% para 57,2%. Por sua vez, a agropecuária manteve sua parcela estável em 4,5%.
Em síntese, esses dados mostram que: 1) em 2021 a economia capixaba voltou a crescer depois de dois anos de variação negativa; 2) a participação capixaba no PIB nacional também voltou a subir; 3) a indústria, sobretudo a de transformação, voltou a crescer e ter participação relevante no PIB estadual.
E que oportunidades visualizamos para a economia do Espírito Santo a partir dos dados do PIB?
Em termos nacionais e numa perspectiva de mais longo prazo, a economia do Brasil cresceu a uma taxa média anual de 2,1% entre 2002 e 2021, representando uma variação acumulada de 48,7% nesse período, segundo o IBGE. No caso do Espírito Santo, a economia local cresceu a uma taxa média de 2,3% a.a. e crescimento de 55% no acumulado no período 2002-2021, colocando o Estado na 18ª posição em termos de crescimento do PIB. Nesse sentido, o Mapa 1, abaixo, mostra as UFs que cresceram acima da média nacional (verde) e as UFs que cresceram abaixo da média nacional (rosa).
Mapa 1: Variação acumulada do PIB das UFs, 2002-2021
E o que esse mapa significa em termos de oportunidade para a economia capixaba? Mostrei em artigo anterior, com dados do IBGE, que o Espírito Santo é mais “produtor” do que “consumidor”, e que as exportações para outras UFs são o principal componente do PIB estadual sob a ótica da demanda. Juntando esses dados, um caminho interessante e factível que podemos trilhar para aumento do crescimento econômico capixaba nas próximas décadas é o de olhar para mercados além da obviedade.
São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais juntos representaram 50% do PIB brasileiro em 2021. Vale pontuar que boa parte das exportações de bens e serviços capixabas se destina para esses três estados, em função do tamanho de seus mercados e pela proximidade logística. Mas e no caso dos demais 23 estados brasileiros, que representaram quase 48% do PIB nacional: será que o Espírito Santo está analisando os potenciais e oportunidades de mercado que eles podem nos proporcionar?
Na região Centro-Oeste, por exemplo, a expansão da produção de grãos e de carne tem proporcionado a Goiás, Mato Grosso e Mato do Sul taxas de crescimento acima da média nacional nos últimos 20 anos. Em Santa Catarina, a Agroindústria, a Indústria de transformação, serviços de Tecnologia da Informação e o turismo têm possibilitado ao estado catarinense também crescer acima da média nacional no período.
Daí surge uma questão: a quais tipos de bens e serviços as empresas e os consumidores dessas quatro UFs têm demanda? E o que o Espírito Santo produz e poderia ofertar levando em consideração esses mercados? As respostas a essas perguntas podem ensejar uma ampliação de mercados para empresas e produtos capixabas, possibilitando aumento na geração de renda empregos na economia.
Diferença da participação das UFs no PIB do Brasil, 2002-2021
Além disso, a tabela acima mostra as unidades que tiveram aumento de participação no PIB brasileiro (verde) e as que perderam participação no PIB brasileiro (rosa) entre 2002 e 2021. Aqui, cabe uma observação interessante: três estados geograficamente próximos ao Espírito Santo (São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia) perderam participação no PIB brasileiro nesse período. São Paulo tinha participação no PIB nacional de 34,9%, em 2002 e caiu para 30,2%, em 2021; Rio de Janeiro passou de 12,4% para 10,5%; e Bahia teve queda de 4% para 3,9%.
E, mais uma vez, isso pode representar oportunidades para o Espírito Santo continuar expandindo sua atividade econômica nos próximos anos. Caso a tendência de queda no PIB desses três estados (para focar nos mais próximos geograficamente) continue nos próximos anos, algumas perguntas relevantes surgem: 1) que tipos de empresas são essas? Agro, indústria, comércio ou serviço; médio ou grande porte; baixa, média ou alta intensidade tecnológica; elas exportam e/ou importam; adotam práticas ESG? 2) quais fatores são determinantes na escolha de um local para se instalarem? Infraestrutura; ambiente de negócios; incentivos fiscais; disponibilidade e qualificação de mão de obra? 3) essas empresas se conectam, de alguma forma, às cadeias produtivas já existentes no ES?
As respostas a essas perguntas podem servir de base para o Espírito Santo aprimorar sua estratégia de atração de investimentos, com o objetivo de “capturar” essas empresas e capital em movimento de saída das UFs que estão perdendo participação no PIB brasileiro e que possam encontrar no Espírito Santo condições objetivas de se instalarem, gerando mais empregos, mais renda, aumento da taxa de crescimento econômico e quiçá expansão de sua complexidade econômica nos próximos anos.
É certo que o governo estadual vem fazendo um bom trabalho de atração de empresas por meio de incentivos fiscais, fomento ao mercado de capitais com o FIP Funses 1 e até mesmo participando de eventos com o setor produtivo capixaba em outros estados. O que está sendo proposto aqui é que o Espírito Santo avalie com cautela as ameaças e oportunidades que a necessária reforma tributária, recém-aprovada pelo Congresso Nacional, e a política industrial, recém-divulgada pelo governo federal, apresentam para a economia capixaba nos próximos anos.
Para que essas duas propostas de ampliação do crescimento econômico do Espírito Santo nos próximos anos aconteçam, a saber, expansão das exportações de bens e serviços para outros estados e atração de empresas de outras UFs para cá, é preciso que as elites políticas e empresariais capixabas construam consenso sobre possibilidades e oportunidades.