A Espanha, que foi um dos países mais afetados pela crise econômica de 2008, com grande crescimento no desemprego, viu nos anos seguintes um expressivo aumento no número de frequentadores dos parques públicos das suas cidades. Eram pessoas que deixaram de pagar academias e cerimoniais de festas em função das dificuldades econômicas, mas que não deixaram de fazer atividades físicas e nem de celebrar festas de aniversários e todo tipo de comemoração social; ou seja, os parques se tornaram os locais onde tais eventos ocorriam.
Tal fenômeno foi tão intenso que algumas cidades passaram a discutir regras para o uso de tais espaços, considerando que qualquer cidadão teria direito em seu usufruto, mas com limites para que os demais também pudessem desfrutá-lo.
Há muito tempo que as cidades passaram a incluir espaços verdes dentro das suas áreas urbanas, numa espécie de domesticação da natureza. Na verdade, muitos jardins que hoje são lugares públicos, eram inicialmente áreas privativas pertencentes às ordens religiosas ou aos palácios da realeza. Algo que se deu até mesmo no Brasil, como é o caso da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, que abrigava a família imperial brasileira (e cujo palácio passou a ser a sede do Museu Nacional, destruído recentemente por um incêndio).
Hoje, já temos convicção da importância dos espaços verdes, como parques e praças, para a qualidade de vida dos citadinos. Além do combate ao estresse, à depressão e ansiedade para todos aqueles que frequentam tais locais, realizando diversas atividades lúdicas e esportivas, estes equipamentos urbanos são fundamentais para a qualidade do ar, atenuam a poluição sonora, contribuem para a drenagem pluvial e controle climático da microrregião aonde se encontram, entre outros benefícios, como serem atrativos turísticos para muitas cidades, como é o caso do Central Park, em Nova York, só para citar um caso emblemático.
Também cabe mencionar o caso de Curitiba, com diversos parques distribuídos pelo seu tecido urbano, buscando a ubiquidade deste tipo de ativo socioambiental para seus cidadãos, ao mesmo tempo em que faz disto um diferencial turístico de uma cidade que não conta com marcos naturais significativos em sua paisagem.
Quem sabe bem disso tudo é o mercado imobiliário. Imóveis residenciais próximos aos parques e praças costumam ser mais valorizados. Mais uma vez cabe citar aqui o Central Park, cujos apartamentos do seu entorno valem milhões de dólares. Convertendo para reais, trata-se de algo que ocorre também na proximidade do Ibirapuera em São Paulo. Há ainda os parques litorâneos, nas cidades costeiras, como na Praia do Canto, em Vitória, ou o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Aliás, o caso do Aterro do Flamengo é significativo, pois contou com projeto paisagístico de Burle Marx, um brasileiro que é um dos mais importantes nomes do paisagismo mundial.
A vida do homem da cidade grande, graças principalmente aos avanços da medicina, ganhou longevidade ao longo do tempo. Porém, ao contrário dos nossos antepassados, fomos ficando mais sedentários, o que compromete o funcionamento do nosso corpo, que precisa ser exercitado. Daí que manter a rotina de atividades físicas é fundamental.
As academias têm sido fundamentais neste processo ao longo das últimas décadas. Mas tudo indica que isso vai mudar daqui pra frente. Como malhar, suar, puxar ar, exercitar-se num espaço fechado usando máscara? Por outro lado, a limitação no número de usuários simultâneos numa academia tornará o negócio inviável financeiramente.
É bem provável que haja uma enorme migração de atletas amadores, praticantes de atividades física de forma individual ou coletiva, muitos deles acompanhados de profissionais de Educação Física, para os espaços abertos dos parques urbanos, o que provocará uma transformação radical deles.
Os grandes parques localizados em áreas não urbanas também serão locais importantes na retomada das atividades que influenciam no nosso físico e emocional à medida que a curva da Covid-19 vai se achatando. Mas muitos destes parques já possuem limitação no número de visitantes, no que se denomina “capacidade de carga”, que é a quantidade de pessoas simultaneamente no mesmo lugar, estratégia que foi adotada durante a pandemia nos estabelecimentos comerciais, de tal modo que a população já começou a se habituar com este regramento.
E na área urbana, as cidades deverão investir cada vez mais neste tipo de equipamento público. No caso da Grande Vitória, por exemplo, é com muito otimismo que se aguarda a conclusão dos novos espaços de lazer que estão em construção em Vitória, próximo à Ilha do Boi, e na Serra, em Bicanga, pois chegarão em boa hora. Regras serão necessárias, sem dúvida, mas que logo sejam flexibilizadas, afinal ficar limitado dentro de um círculo pintado na grama é algo abstrato para quem quer relaxar, exercitar-se, estar em contato com a natureza...