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Natureza

Ainda temos que aprender a lidar com o fogo

Basta uma pequena faísca, um descuido, uma guimba de cigarro, para que o fogo se alastre destruindo tudo que vê pela frente

Publicado em 14 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

14 abr 2022 às 02:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

“Se você quer brigar e acha que com isso estou sofrendo? / Se enganou meu bem / Pode vir quente que eu estou fervendo!” (“Vem quente que eu estou fervendo”, Getúlio Francisco Cortes)
Desde o início da pandemia, que provocou o confinamento das pessoas, além da tragédia que foram os milhões de mortos pelo mundo, mudanças comportamentais foram observadas na maioria das pessoas. Apesar das consequências nefastas causadas aos que sobreviveram, muita gente se deu conta de algumas mudanças foram positivas.
Tem gente que largou a vida estressante da cidade grande e foi morar no campo. No meu caso, por exemplo, que até então mal cozinhava, descobri um novo prazer: a gastronomia. De uma incrementada na omelete a uma carne assada, passando por bolinho de bacalhau ou quibe assado, tenho me divertido no fogão. À medida que fui pesquisando receitas, comecei a me arriscar cada vez mais, misturando ingredientes ou até reaproveitando alimentos já prontos. A única coisa que não pode faltar: o fogo.
Confesso que não sou muito fã de churrasco como evento, isto é, ficar ao lado de uma churrasqueira esperando alguém ir servindo cortes de picanha ou linguiça saídas diretamente do espeto, mas é claro que gosto de uma carne na brasa, apesar de que minha preferência não seja a mal passada e sim ao ponto. De qualquer modo, em ambos os casos, é preciso do fogo para acender o carvão.
No Brasil, com o alto preço do gás de cozinha, há quem tenha voltado ao fogão à lenha para preparar os alimentos em casa, notadamente a população mais pobre. Mas embaixo da panela que prepara a comida, num fogão convencional ou não, tem sempre um fogo queimando.
O fogo é um dos elementos básicos da natureza.
Em regiões frias, o frio invernal que faz doer os ossos, é combatido com o fogo que arde numa lareira.
A imagem romântica de uma pessoa apaixonada, com o coração quente, muitas vezes se vê ilustrada com uma chama acesa. É o fogo que arde, deixa as bochechas avermelhadas... E o que dizer de um jantar à luz de velas?
A luz que emana de uma fogueira num acampamento ou numa festa de São João nos deixa hipnotizados. A coloração, que pode ir do azul ao laranja, passando pelo amarelo ou vermelho, se vê refletida nos olhos, atraindo nossa visão para aquele elemento inquieto, cujo brilho é fascinante.
Em todo o mundo, fogos de artifício são utilizados para comemorações como casamentos, aniversários ou a chegada do ano novo. E apesar de já ter quem defenda o uso de fogos de artifício silenciosos, evitando o estresse nos animais incapazes de compreender o estampido, a magia da luz brilhante dos fogos estourando no céu é quase uma unanimidade.
O calor do fogo transforma minerais extraídos da natureza, como o aço que usamos no dia a dia em nosso ambiente doméstico e que dá forma a automóveis ou aviões.
A invenção da caldeira, que usava o fogo para aquecer a água para produzir vapor, gerando força, movimentação para as máquinas, está na base da Revolução Industrial.
Mas basta uma pequena faísca, um descuido, uma guimba de cigarro, para que o fogo se alastre destruindo tudo que vê pela frente.
Em 1871 um incêndio de proporções gigantescas destruiu grande parte da cidade de Chicago no EUA. Ao longo do tempo, diversos edifícios foram destruídos por incêndios, matando pessoas, destruindo histórias, sonhos, bens materiais. São sempre episódios dramáticos, cuja destruição deixa um rastro de tristeza.
Aqui no Brasil, acervos artísticos, culturais e científicos foram dizimados nos trágicos incêndios do Museu de Arte Moderna e Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e do Museu da Língua Portuguesa e da Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Normalmente imagina-se que por estarem situadas nas duas maiores e mais desenvolvidas cidades brasileiras, tais instituições estariam melhor equipadas e protegidas do que aquelas espalhadas pelos rincões do país. O mais provável, contudo, é que a situação de despreparo e abandono seja a mesma, apesar da dedicação de muitos daqueles que trabalham neste tipo de entidade.
E o que dizer do fogo que vem devastando nossas matas, devorando nosso meio ambiente? Pior ainda quando se sabe que se trata de algo crônico, uma tragédia que se tornou permanente, habitual, rotineira, que se repete todos os anos e até com a conivência de quem deveria ser o guardião deste precioso bem.
O cinza que fica vindo da fumaça que sobe aos céus ou nos tocos de árvores carbonizadas não tem nada de fascinante, é uma cor de tristeza, reflexo de uma sociedade que ainda não aprendeu a lidar com esse elemento tão perigoso quanto fundamental em nossas vidas.
Bom seria se agíssemos como crianças, que sabem que não se deve brincar com fogo, “senão faz xixi na cama”.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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