No mês passado, comemorou-se em todo o mundo literário o centenário do escritor Italo Calvino. Li algumas de suas obras, entre elas “O Barão nas Árvores”, “Seis propostas para o próximo milênio”, enquanto leio atualmente “Palomar”. Mas, sem dúvida alguma, e não só para mim e para a maioria dos seus leitores, mas também para o próprio Calvino, “As Cidades Invisíveis” é seu livro mais contundente, ainda mais para um arquiteto e urbanista.
O lirismo dessa obra é um campo fértil para a nossa reflexão em relação às cidades, habitat da espécie humana ao longo da história. Houve até quem tenha se aventurado transformar em imagens os lugares urbanos criados por Calvino, como é o caso da chilena Karina Puente e do italiano Matteo Pericoli.
Curiosamente, temos também outro livro, talvez menos conhecido, mas que possui a mesma temática e com a mesma sublimidade: “Cidades Inventadas”, escrito por Ferreira Gullar. Trata-se, porém, de uma publicação que já nasceu ilustrada com diversas xilogravuras do talentoso Rubem Grilo espalhadas pelas páginas desse livro.
A cidade foi a resposta do homem à natureza. Alijados do Jardim do Éden, fomos obrigados a recriar um ambiente no qual pudéssemos viver, procriar, estar com nossa família e amigos, criar novas relações, trabalhar, estudar e ser feliz.
E assim fomos criando cidades de todos os jeitos, em todos os lugares, com formas variáveis, à beira mar, na montanha, às margens de um lago ou de um rio, no meio do deserto. Há cidades bonitas, assim como as feias (mas é melhor não citar nenhuma, para não ferir o orgulho de quem lá vive). Algumas cidades são longevas e eternas (Roma? Paris?), outras muito jovens. Cidades pequenas, grandes, metropolitanas, cosmopolitas, mas também há aquelas provincianas, conservadoras, enquanto outras são avançadas, inovadoras.
Tendo criado a cidade a partir da sua própria experiência, o homem a fez tanto com acertos como com erros, numa ação que vai sempre dinamizando sua conformação em razão das transformações impostas pelos desejos de torná-la cada vez mais um ambiente íntegro e acolhedor.
Infelizmente, do mesmo modo como sabe criar, o homem também sabe destruir cidades.
Gullar até usou tal ideia em uma das suas cidades inventadas: “De fato, o povo de Bela não conhece a paz e não acredita que ela exista, senão como mera aspiração dos povos, jamais alcançada”. Mais adiante ele segue: “Em Bela, a guerra sempre fez parte efetiva da vida da cidade e dos cidadãos. Desde que nascem, homem ou mulher, todos são educados em função da guerra. Nas escolas aprendem a odiar o inimigo e a ter como dever primeiro exterminá-lo”.
Não dá pra ler algo assim e não pensar, por exemplo, no que ocorre hoje no Oriente Médio, na guerra entre Israel e o Hamas. Mas também temos visto tal tipo de destruição na Ucrânia, sem falar em todas as guerras anteriores que tem, entre outras consequências, a aniquilação de cidades.
E por que usar uma palavra poética como “bela” para nominar uma cidade associada com algo tão funesto como a guerra?
E por que se usa tanto o nome de Deus, que semeia uma mensagem de paz aos homens, para justificar guerras?
Já houve quem tenha argumentado que muitas nações fazem da destruição de cidades, por meio de guerras, uma estratégia econômica para prestação de serviços e empréstimos financeiros para a reconstrução das áreas urbanas.
Quem faz as nações são os homens. E não resta dúvida, a depender das circunstâncias, o homem é tão bom e altruísta quanto vil e egoísta.
Mas também somos criativos, sonhadores. Bom seria se usássemos nossa criatividade e inventividade apenas para fazer o bem.
Os intelectuais e artistas ideólogos do Modernismo, sob o bojo das transformações trazidas pela Revolução Industrial, acreditaram que estava por iniciar um novo período histórico da humanidade caracterizado pela redenção da sociedade. Em outras palavras, para eles as inovações tecnológicas seriam capazes de facilitar a vida de tal modo que o mundo entraria numa era fraternal.
Ledo engano. A tecnologia – entre outros aspectos – aumentou a desigualdade social entre ricos e pobres e trouxe a destruição em massa proporcionada por modernas máquinas de guerra, e aí foi o que se viu na primeira metade do século XX em boa parte do mundo.
Aparentemente, ainda não sabemos qual caminho seguir, se o da paz ou da guerra, se desejamos construir cidades acolhedoras ou se queremos destruí-las.