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Tarcísio Bahia

Destino da Rua da Lama expõe o desafio da convivência nos bairros

Algum grau de tolerância é desejável, considerando que, por mais homogênea que seja uma vizinhança, há desejos e necessidades individuais específicos

Publicado em 18 de Julho de 2019 às 19:49

Públicado em 

18 jul 2019 às 19:49
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

Projeto na Lama, na Rua da Lama, em Vitória Crédito: Projeto na Lama/Divulgação
De acordo com o pesquisador norte-americano Robert Sampson, as características de cada bairro de uma cidade moldam o comportamento dos vizinhos, numa reciprocidade que faz com que a essência do lugar se mantenha mesmo com a saída e chegada de novos moradores. Por outro lado, é claro que, ao longo do tempo, bairros podem sofrer mudanças em suas características originais, seja para melhor ou para pior, num círculo virtuoso ou vicioso, que contagia o comportamento das pessoas e reflete no ambiente social.
A participação de líderes comunitários engajados no bem-estar de uma vizinhança é fundamental no processo de disseminação de ações positivas, capazes de fazer um bairro se apresentar como um lugar seguro, limpo, agradável, onde as pessoas se sentem felizes em viver e lutarão pela permanência desta percepção à todos que vivem ou frequentam aquela parte da cidade.
Segundo tal teoria, ao menor sinal de algum distúrbio, a comunidade agirá prontamente, evitando que o “fato perturbador” se prolongue ou até alcance uma escala que se torne incontrolável. Nesse sentido, algum grau de tolerância não é totalmente indesejável, considerando que, por mais homogênea que seja uma vizinhança, há desejos e necessidades individuais específicos, e todos teriam o direito de expressá-los e/ou reivindicá-los.
É neste ponto nevrálgico, por exemplo, que se encontra atualmente a comunidade de Jardim da Penha, composta tanto por universitários como por idosos, ao ter que debater o agito da Rua da Lama.
Copacabana
Copacabana, provavelmente o bairro mais famoso do Brasil, guarda há décadas sua essência praieira e boêmia, fazendo com que grande parte de seus moradores tenham o hábito de frequentar a praia e os diversos bares e restaurantes quase todos os dias, seja para caminhar, jogar peteca, nadar ou, quando a noite chega, jogar conversa fora com os amigos, tendo na mão uma tulipa de chope. Trata-se de uma característica que atrai para o bairro pessoas que se identificam com tal ambiente urbano.
Público esperado de 2,7 milhões de pessoas faz do Réveillon de Copacabana o maior do mundo Crédito: Nielmar de Oliveira/Repórter da Agência Brasil
Tendo alta densidade habitacional, Copacabana conta não só com ampla oferta de imóveis residenciais de todos os padrões, dos mais luxuosos aos mais compactos, como também possui intensa atividade de comércio e serviços, além de boa infraestrutura urbana, como no caso do transporte que conta com metrô e várias linhas de ônibus. Daí que o bairro não atrai apenas jovens e recém-casados, mas também idosos aposentados que gostam da agitação que combate a solidão e onde encontram de tudo um pouco, do lazer aos serviços médicos e redes de farmácias.
Manguinhos
Cabe ainda mencionar outro bairro praiano, famoso pelo menos para os capixabas, porém com baixa densidade, que é Manguinhos.
Com a maioria das suas ruas sem pavimentação (que deixa o ambiente mais bucólico e com trânsito menos veloz); com lotes ocupados por casas unifamiliares, muitas delas de final de semana (que faz o bairro ficar esvaziado e com ruas desertas ao longo dos dias laborais); com muitas casas possuindo cachorros (que ajudam na proteção dos imóveis contra furtos, bastante frequentes ali); e, com uma praia cuja presença da restinga protege contra a erosão (que já ocorre em alguns pontos onde a vegetação foi removida), o que mais acontece é o embate entre moradores que divergem sobre como conduzir um futuro convergente, haja vista os pontos de vista discordantes.
Em Manguinhos, Serra, vegetação ganha destaque no contraste com o azul do mar Crédito: Secundo Rezende/Drone
Quando chove, tem aqueles que reclamam que as ruas deveriam ser pavimentadas, pois não conseguem sair de casa sem passar pela lama. Quem não tem cachorro, pode se sentir incomodado com o latido incessante do barulho vindo do vizinho que possui uma matilha dentro do seu lote. Tem quem ache que a restinga só serve para delinquente se esconder, daí sugerir uma poda drástica ou até mesmo sua supressão.
E assim, para cada tema, tem quem pense de um jeito, tem quem pense de outro. A questão principal, porém, é como cada um pode fazer sua parte para melhorar o mundo em que vivemos. O bairro é um bom lugar para começar.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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