“Beijei o beijoqueiro na televisão/ Acabou-se a inflação/ Barato é o marido da barata/ Amazônia preza a sua mata/ Pega na mentira, pega na mentira/ Corta o rabo dela, pisa em cima/ Bate nela, pega na mentira” (“Pega na mentira”, Erasmo Carlos e Roberto Carlos)
A literatura ficcional tem um papel fundamental no desenvolvimento humano, criando histórias que expandem nossa mente ao mesmo tempo que nos entretêm, nos fazendo viajar no tempo e por muitos lugares, reais ou imaginados. Somos gratos a todas as narrativas que fizeram a sociedade sonhar com um mundo melhor, tanto quanto àquelas que souberam denunciar os vícios humanos que sempre devem ser combatidos.
De modo geral, os textos literários reúnem os dois aspectos, isto é, o que o homem tem de bom e de ruim. E, infelizmente, o que não falta no mundo é gente má, pessoas que carregam dentro de si uma maldade arraigada. É provável que lhes falte leitura, espantando a amargura interna que pudesse deixá-los mais sensíveis à beleza do mundo, deixando de lado toda crueldade que se vê em suas falas, ações e pensamentos.
Tal ideia, porém, se torna injusta com muitas pessoas naturalmente boas, altruístas e afetuosas, mas que, por força do destino, nunca puderam ler um livro.
Se a palavra é a matéria-prima de toda narrativa literária, é curioso notar como as palavras adquirem novos sentidos ao longo do tempo. Na verdade, é até mesmo estranho notar como uma palavra, como é o caso de “narrativa”, adquiriu novo contexto e vem sendo usada atualmente de modo exaustivo, mas quase sempre associada a mentiras contadas com interesse político.
Inventam histórias inverídicas, depois alguém se dá conta que nada daquilo é (era) real, e aí logo é preciso parar tudo que se estava fazendo para poder elaborar uma estratégia de combate às inverdades. A elas, isto é, às mentiras veiculadas publicamente, criadas e direcionadas para confundir a sociedade, passou-se a dar o nome de “fake news”.
Não é um trabalho fácil o do time de pessoas, normalmente formadores de opinião, em desmontar as tais “narrativas”. O problema é que neste “disse me disse” entre os que criam as falsidades e os que tentam esclarecê-las ou desmenti-las, o povo fica no meio de um pingue-pongue e já nem sabe mais qual “narrativa” é a verdadeira...
Se em todo trabalho artístico, como é o caso do escritor, prevalece aquela ideia de que é necessária “muita transpiração” para “pouca inspiração”, agora estamos nos dando conta de que, no caso das invencionices, é preciso transpirar bastante, fazer muito uso de discursos, argumentações, esclarecimentos para que as mentiras, repetidas exaustivamente, não acabem se transformando em verdades, tal como alertou recentemente o presidente do TSE.
Aliás, dá pra acreditar em alguém que, comprometendo-se em não mentir, depõe naquela CPI? Sem falar nas caraminholas do atual governo.
Um dos riscos que corremos com esse circo que estamos vendo nos dias atuais é mesmo a realidade suplantar a ficção, até que se chegue ao ponto de que nenhuma literatura ficcional seja mais necessária. Se a ficção é uma invenção com sentido de nos emocionar e entreter poeticamente, oferecendo-nos uma alternativa à realidade, a mentira deliberada não tem outro objetivo que não seja a destruição da realidade vivida que viemos a duras penas construindo em nossa sociedade ao longo do tempo.
No âmbito da literatura, um dos seus gêneros bastante popular é a ficção científica, cujas histórias costumam se passar no futuro, muitas delas criando uma imagem disruptiva do que pode vir a se tornar o mundo caso o homem siga adotando determinadas ações em relação a ele próprio ou ao ambiente em que vivemos.
Imagina-se, porém, que tanto os alertas ficcionais, mas principalmente as determinações de alguns governantes responsáveis, as inovações científicas e a tomada de consciência do próprio homem, recoloquem o futuro numa direção correta.
Já a mentira, ao contrário da ficção científica, costuma-se operar no passado: fulano fez aquilo..., beltrano disse que..., cicrano foi visto com... Mas a criatividade desacerbada dos atuais mentirosos inventou a mentira futurista, a que ainda está por acontecer.
Pena que eles não usem tanta imaginação para praticar o bem. E ainda que se possa dizer que não lhes falta criatividade, é certo que eles são todos vazios de talento e sensibilidade, razão pela qual ainda teremos preferência por um bom livro.