Dias atrás, eu e alguns colegas capixabas do Instituto de Arquitetos do Brasil trocamos mensagens sobre a questão do novo presidente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ser um sociólogo e não alguém com formação em arte ou arquitetura, por exemplo.
Leandro Grass, filiado ao PV, foi deputado distrital e, portanto, podemos considerá-lo um político. Isso, provavelmente, foi a principal condição para sua nomeação. Mas o debate com os colegas arquitetos era pelo fato de ele ser formado em sociologia, como se tal área de conhecimento fosse inadequada para dirigir um órgão que trata da proteção do nosso patrimônio.
De fato, a comunidade ligada ao patrimônio brasileiro esperava um nome técnico à frente do Iphan, ao contrário do que ocorreu. O agravante, porém, é mesmo o fato de Leandro não ter nenhuma experiência com o patrimônio, justamente após a gestão do governo anterior que em nenhum momento tratou o tema com a devida responsabilidade, ao ponto de vermos o rastro de destruição daquele triste dia 8 de janeiro.
Voltando ao tema inicial, isto é, sobre uma instituição ser dirigida por um técnico ou por um político, cabe lembrar que Fernando Henrique Cardoso, também sociólogo, foi responsável pela implantação do Plano Real quando esteve à frente do Ministério da Fazenda, cargo muitas vezes associado aos economistas.
Ao nível estadual e municipal, muitos governadores e prefeitos já se deram conta da dificuldade de ter um médico como secretário de saúde de seus estados ou municípios.
Neste ponto convém pontuar duas questões, não necessariamente excludentes: a desvalorização (recente) da política e a desvalorização do conhecimento empírico.
Os erros cometidos por diversos integrantes da classe política ao longo de diversas décadas, mas talvez mais acentuados em anos recentes (e que proporcionaram a eleição de políticos que não fizeram outra coisa senão tentar desmontar o próprio processo político), fizeram com que muitos brasileiros perdessem todo interesse naqueles que ocupam algum cargo público, e assim, passaram a pôr a culpa em todos os problemas do país na classe política, como se ela não fosse um reflexo do próprio povo.
Muitos de nós ficam na cômoda posição de reclamar dos políticos, sem se dar conta que a mudança deve partir de nós mesmos.
No curso de arquitetura e urbanismo da UFRJ, onde me graduei, tive a grata oportunidade de estudar com Luiz Paulo Conde, na época já bastante conhecido pelo seu escritório de onde saíram ótimos projetos arquitetônicos. Acabei trabalhando com ele, tornando-me amigo ao longo do tempo.
Conde se deu conta que não bastava ser arquiteto para implementar tantas ideias que nós, os arquitetos, temos para as cidades; daí seu ingresso no meio político, até alcançar o cargo de prefeito da cidade do Rio de Janeiro.
O arquiteto Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, dizia algo parecido.
Contudo, creio ser possível participar da política sem necessariamente ocupar algum cargo público. A sociedade contemporânea já contempla diversas comissões, comitês, representações, etc. nas quais podemos contribuir para o bem comum da coletividade, dividindo assim as responsabilidades com o próprio poder político.
O conhecimento técnico-acadêmico que os arquitetos e diversos outros profissionais possuem é de grande valia para qualquer esfera da administração pública. Seria desejável se muitos levassem tais conhecimentos para o ambiente político, contribuindo para melhorar o nível das decisões, bem como dos projetos, da agenda política.
Não obstante, e chegando ao segundo ponto, o do empirismo, é importante ressaltar que não se deve confundir um conhecimento reconhecidamente adquirido, mesmo que de modo autodidata, com o “achismo” tão comum hoje em dia, em tempos de Google, fazendo com que todo mundo tenha opinião sobre tudo e nunca baseada, por exemplo, em fatos cientificamente comprovados.
É o caso dos, já mencionados, secretários de saúde que não são médicos, mas possuem grande conhecimento da gestão pública da saúde, a partir da experiência que foram adquirindo no passar do tempo.
E saindo um pouco da esfera pública e voltando à minha área de formação, é sabido que alguns renomados arquitetos nunca obtiveram um diploma acadêmico oficial. O norte-americano Frank Lloyd Wright e o franco-suíço Le Corbusier são dois nomes que dispensam apresentações.
No Brasil temos o Zanine Caldas que, com enorme conhecimento de madeiras, projetou magníficas construções, incluindo diversas residências de luxo no Rio de Janeiro. Zanine atuou também como designer, cujo mobiliário até hoje integra uma genuína expressividade brasileira.
De todo o imbróglio acima, fica a convicção que é preciso juntarmos todo tipo de conhecimento, seja ele formal ou empírico, e dedicarmos parte do nosso tempo para parar de criticar e pôr as mãos à obra para reconstruirmos o país.