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Tecnologia

Máquinas versus pessoas: ainda prefiro o bar com garçom

A pressa dita o ritmo da vida e vai achatando a experiência cultural urbana, fazendo com que tudo fique igual, sem nenhum tipo de surpresa que possa nos fazer rir, pois a piada já vem pronta

Publicado em 08 de Agosto de 2024 às 01:40

Públicado em 

08 ago 2024 às 01:40
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça / Um guardanapo e um copo d'água bem gelada” (“Conversa de Botequim”, Noel Rosa e Vadico)
Botequeiro que sou, sempre tive em mente que uma das razões de frequentarmos bares é o contato com as pessoas. Houve uma época em que cheguei a acreditar que a filosofia dos botecos equivalia ao conhecimento das bibliotecas (e admitindo aqui que sou um voraz leitor de livros...).
Mas o bate-papo botequeiro nunca foi apenas com os amigos de mesa, com quem dividimos a cerveja, os tira-gostos e a conta, mas também, como já dizia Noel, com os garçons, ao ponto de ao longo do tempo tê-los em alta estima. A fidelidade, portanto, a alguns bares é algo que trazemos conosco, mesmo que estejamos abertos a conhecer novos botequins, afinal conversa boa e cerveja gelada existem em qualquer lugar.
Contudo, se a recente pandemia forçou o fechamento temporário de bares e restaurantes, a reabertura deles fez com que muitos estabelecimentos trocassem os cardápios impressos por sistemas digitais a partir da leitura de QR Code. Em seguida, não apenas os cardápios, mas também os pedidos passaram a ser feitos sem a intermediação do garçom, reduzindo-se o contato pessoal que caracterizava a animação botequeira.
Daqui a pouco a comida será servida por robôs, ou algum sistema que abra um alçapão na mesa e o prato chegue ali através de algum duto escondido. Ah, provavelmente já é assim em alguns restaurantes por aí, só não me convidem para um lugar desses.
A ciência sempre busca meios de aperfeiçoar os sistemas que fazem parte do universo, da natureza, das diversas formas de vida... de tal modo que inovação tecnológica é algo inerente à civilização humana. E, enquanto sociedade, somos nós que temos que saber quais são os limites éticos a serem estabelecidos no uso da tecnologia (algo que é a base narrativa, por exemplo, do filme "Oppenheimer", ganhador do Oscar, e cuja história se passa na primeira metade do século passado).
E com relação a isso, nada mais atual que a questão do uso da IA (Inteligência Artificial) de modo expansivo e ubíquo em todas as atividades humanas, algo que muitos temem enquanto outros aguardam animadamente.
E já que acima mencionei o cinema, os roteiristas de Hollywood já demonstraram a preocupação com o uso da IA para a elaboração de novos roteiros de filmes e séries. E, do mesmo modo, os artistas gráficos, músicos e até os advogados, afinal as petições feitas por robôs (sistemas computacionais) estão se mostrando totalmente eficientes, ao contrário daquelas feitas por profissionais humanos.
Voltando aos restaurantes e ainda no âmbito norte-americano, as redes de fast food já vem mesmo utilizando máquinas informatizadas na produção de diversos alimentos, como batata frita ou hambúrguer, inclusive pelo fato da carência de mão-de-obra para tais tipos de serviço. As empresas, com isso, eliminam os riscos de acidentes de trabalho e, principalmente, ganham em produtividade, eliminando perdas e tornando o atendimento aos clientes mais rápidos e os itens do cardápio cada vez mais homogêneos.
Oportunidade de trabalho para garçom
Bares, lanchonetes e garçons Crédito: Freepik
A pressa dita o ritmo da vida e vai achatando a experiência cultural urbana, fazendo com que tudo fique igual, sem nenhum tipo de surpresa que possa nos fazer rir, pois a piada já vem pronta.
Obviamente que uma das primeiras coisas que vem à mente quando o assunto é a IA é o desaparecimento de milhares de postos de trabalho, cujas consequências futuras ainda não podemos avaliar.
Nas últimas décadas, vimos que o principal resultado do desenvolvimento tecnológico não é a facilitação das atividades humanas, mas sim a tremenda acumulação de riqueza numa parcela cada vez menor de pessoas. Até houve aumento na expectativa de vida de uma parcela da população mundial, mas também vem crescendo a fome mundial, a despeito de toda a tecnologia atual.
Da minha parte, continuarei preferindo os bares onde os garçons ainda fazem parte do ambiente e podemos pedir pra ele trazer mais uma gelada, daquelas que vem com a garrafa esbranquiçada, e que depois ele pergunte ao “freguês do lado / qual foi o resultado do futebol...”

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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