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Tarcísio Bahia

Mineração precisa mudar para garantir a sustentabilidade do planeta

A pergunta é: poderíamos pensar em alternativas que demandassem matéria-prima de maior valor sustentável, mais reciclável, com menor impacto ao meio ambiente?

Publicado em 26 de Fevereiro de 2019 às 16:34

Públicado em 

26 fev 2019 às 16:34
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

Vale fecha acordo parcial com Ministério Público do Trabalho para atender vítimas de Brumadinho Crédito: Lucas Hallel/Ascom Funai
Não há como ficar indiferente à tragédia de Brumadinho, tal como tampouco estávamos em relação à de Mariana, com todas as suas dramáticas consequências que vêm se arrastando nos últimos três anos, sem perspectiva de acabar em curto prazo. Uma vez consternados, acompanhando diariamente as notícias e psicologicamente solidários com as vítimas e com os trabalhos das equipes de resgate, também temos nos mostrados esperançosos que o trabalho da polícia, Ministério Público e da Justiça tenha efeito sobre todos os culpados.
Gostaria, porém, de fazer uma inflexão para propor uma reflexão sobre dois outros aspectos desse processo de extração do minério de ferro: 1. a mutilação da paisagem, em função do processo extrativo e, 2. as razões desse processo, em função do nosso consumismo.
Sou arquiteto-urbanista e não geólogo, tendo apenas superficial conhecimento sobre solos quando estudamos soluções de fundações ou drenagem para projeto de edificações ou arruamento, respectivamente.
Vídeo mostra o exato momento em que barragem da Vale se rompe em Brumadinho Crédito: TV Globo
Agora, por conta do desastre, já sabemos que existem modelos de barragens mais seguras às de alteamento por montante. No entanto, não tenho visto debate sobre um aspecto daqueles imensos lagos que não são de lama natural, mas de rejeitos líquidos: eles, certamente, alteram o ambiente local, tornando inertes aquela porção do território onde estão localizados. E o mesmo ocorre com as minas de onde se extraem o minério, cujo resultado são montanhas ocas e, desse modo, não deixam também de ser um enorme rejeito a céu aberto, isto é, um espaço residual, sem vida...
Mas, além disso, também soubemos que existem centenas de barragens como essa no país, muitas delas com baixo nível de segurança. E, sendo assim, também temos nosso território todo perfurado, cheio de “cicatrizes” em meio das áreas não urbanas onde estão localizados. E aí, justamente por tal condição, tampouco são áreas rurais ou naturais de preservação ambiental. Então, o que são elas? Nada, a não ser áreas de descarte, simples assim...
Ou seja, após escavar, pega-se o que quer, joga fora o que não quer e faz sujeira duas vezes? Sim, duas vezes, pois tem o buraco da mina e o lago de rejeitos. E assim, o lugar, que outrora foi uma região onde provavelmente tinha algum tipo de fauna e flora, fica lá jogado, sem nenhum valor para a natureza, para a paisagem...
É isso que queremos para o Brasil?
Rejeito de lama do rompimento de barragem da mineradora Vale chega ao Rio Paraopeba em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte Crédito: Foto: ALEX DE JESUS/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO
Mas tem outra questão que me incomoda: quer dizer que a civilização humana, em pleno século XXI, após ter ido à Lua, ter inventado o telefone celular, o código de barras e a internet, ter criado o acelerador de partículas nucleares, não consegue encontrar uma solução melhor tanto para as minas quanto para os rejeitos produzidos no processo de extração?
Daí a segunda reflexão que trago: extrai-se ferro, assim como outros minerais, por que o homem consome produtos que precisam do ferro para existir. Não, a ideia não é transferir a responsabilidade da empresa para nós, cidadãos consumidores. Mas a pergunta é: poderíamos pensar em alternativas que demandassem mais produtos feitos a partir de matéria-prima de maior valor sustentável, mais reciclável, com menor impacto ao meio ambiente? É o caso, por exemplo, do canudo de plástico, que, substituído pelo de papel, certamente causará menos problema para a natureza, lembrando ainda que no papel é usada celulose, extraída de árvores, que são renováveis.
Talvez seja essa uma questão mais complexa, ainda assim creio que todos teremos que repensar responsavelmente em como lidar com a finitude do planeta.
P.S. O texto acima foi escrito antes de duas outras tragédias recentes, o incêndio no Ninho do Urubu e a queda do helicóptero que transportava o jornalista Ricardo Boechat. Pelo que se especula até agora, todas as três tragédias foram resultados de decisões humanas equivocadas, e não por simples fatalidade. Se tem algo que o homem precisa de fato aprender é a pensar nas consequências de seus atos...

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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