Nesta semana, um temporal em São Paulo provocou a queda de centenas de árvores, algumas de grande porte; uma delas, infelizmente, causou a morte de uma mulher. A despeito da intensidade da chuva, em alguns casos a queda de árvores no meio urbano se vê facilitada pela falta de controle da prefeitura em relação à vida útil da arborização e da escolha equivocada das espécies mais indicadas a serem plantadas nas cidades, em função de tipo de solo; tipo de raiz, folhagem, copa, fruto etc.; manutenção e poda; conflito com posteamento e rede de fiação aérea, entre outros aspectos.
Apesar da tragédia paulistana por causa de árvores caídas, em geral a população tem muito clara a importância da arborização para a qualidade de vida das pessoas das áreas urbanas. Muitas vezes, a simples retirada de uma árvore sem uma comunicação adequada com os cidadãos provoca um desgaste entre moradores e entre eles e a municipalidade.
Dias atrás, por exemplo, a remoção de uma árvore centenária, um oiti, pela equipe da prefeitura causou celeuma e revolta em vizinhos de uma rua residencial na Tijuca, no Rio de Janeiro. Antes disso, em agosto e do outro lado da cidade, no Mirante do Pasmado, em Botafogo, mais reclamação por motivo idêntico, só que desta vez a retirada foi de várias árvores, para indignação de muitos cidadãos daquela região da cidade.
Já em Vitória, o atual prefeito enfrentou a resistência dos moradores da Praia do Canto durante seus dois mandatos, agora já na reta final, que não concordaram com a remoção de árvores da Avenida Rio Branco para instalação de uma ciclovia, algo que eles também veem com bons olhos, mas não ao ponto de interferir na exclusão daquela arborização já consolidada na história do bairro.
Uma espécie de árvore que sempre causa polêmica é a Terminalia catappa, vulgo amendoeira, para os cariocas, ou castanheira, como os capixabas a chamam. Trata-se de uma espécie exótica, ou seja, não é natural do Brasil, apesar de ser muito comum em diversas regiões do país por sua fácil adaptação ao clima local.
Apesar de produzir uma sombra extremamente frondosa para quem pode disfrutar da sua copa, essa árvore tem sido banida de muitas áreas urbanas, pois suas raízes danificam a pavimentação das vias e seus frutos e folhas provocam entupimento das redes de drenagem ao caírem. Para muitos, quando isso ocorre, fica uma enorme sujeira acumulada nas ruas, até que o serviço de limpeza da prefeitura faça o recolhimento das folhas e dos frutos.
Ocorre, porém, que sempre que o setor da municipalidade responsável pela manutenção das áreas verdes de alguma cidade decide por sua remoção, dadas as razões apontadas acima, há quem reclame de modo veemente contra tal decisão, argumentando que tal ou tais árvores já estão incorporadas naquela paisagem e na memória afetiva, principalmente dos moradores mais antigos do lugar.
É ótimo saber que muitas pessoas guardam uma relação afetuosa com as árvores dos locais onde elas moram, tendo na memória a presença arbórea como parte da história das nossas ruas, bairros e cidades.
A árvore é um ser vivo de extrema importância na ambiência urbana. Deveria ter sido tema de alto interesse até mesmo dos candidatos a prefeitos e dos vereadores de cada cidade, ao contrário do que ocorreu durante a campanha política, quando praticamente ninguém demonstrou interesse no assunto.
Mesmo antes da pandemia já havia uma preocupação cada vez maior no estímulo à mobilidade ativa, fazendo com que cada vez mais pessoas façam uso da caminhada e da bicicleta em seus deslocamentos diários. A ideia, claro, era reduzir o número de veículos automotores transitando nas cidades e que provocam acidentes, engarrafamentos, poluição do ar e sonora e, consequentemente, diversos tipos de doenças, sejam elas pulmonares, sejam comportamentais, entre outras.
Agora, contudo, aumenta-se a disposição em promover a mobilidade ativa como alternativa ao uso do transporte coletivo, um dos principais vetores da contaminação da Covid-19. Para caminhar e andar de bicicleta em nossas cidades de clima tropical, quentes e úmidas, é preciso que as vias sejam devidamente arborizadas, protegendo-nos do sol radiante.
A pandemia também fará com que as municipalidades deem cada vez maior atenção aos parques e praças das cidades, ampliando suas áreas para que a população possa disfrutar dos espaços esverdeados para praticar esporte ou mesmo para encontros com amigos em locais abertos.
É provável que até mesmo escolas façam uso constante dos parques e praças arborizados para atividades educativas, dispensando em algumas ocasiões a sala de aula convencional.
No dia a dia, as árvores proporcionam uma melhor qualidade do ar que respiramos, tornam as cidades mais bonitas, silenciosas e contribuem para a drenagem pluvial (a folhagem absorve ruído e água da chuva), deixam as ruas mais frescas, menos quentes, protegendo-nos da radiação solar (já há estudos dermatológicos relacionando o câncer de pele às áreas urbanas com poucas árvores), atraem insetos e pássaros, entre outros animais da fauna urbana que enriquecem o ecossistema local.
Algumas cidades, como Madri, investiram num amplo plano de arborização que mapeou todas as árvores da cidade, monitorando o status de cada uma delas, o que possibilita ações preventivas, buscando tornar a cidade mais harmônica e com melhor qualidade de vida para seus moradores.
Bom seria se o tema da arborização urbana fosse incluído nos currículos escolares e nos programas de governo dos nossos futuros prefeitos!