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Desemprego

O Brasil é cada vez mais um país entristecido

É importante ter em conta que, para cada um dos 14 milhões de desempregados, há um círculo familiar em condições precárias. São pessoas sem perspectiva de felicidade

Publicado em 05 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

05 nov 2020 às 04:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

Desempregado
Com pandemia, Brasil bateu recorde de desemprego Crédito: Freepik
“Ela estava ganhando tudo o que sempre lhe disseram que a faria feliz (...), mas a cada dia sentia-se mais infeliz. Não ajudava o fato de que as pessoas esperavam que ela estivesse em êxtase. Ninguém queria ouvir os problemas de uma Cinderela frustrada; ela tinha a obrigação de viver feliz para sempre.” ("Clímax", Chuck Palahniuk)
Segundo a crença que muitos de nós temos, é preciso pagar nossos pecados durante a vida terrena para que possamos encontrar a felicidade eterna num outro plano. Isso, porém, não significa que não se possa buscar a felicidade aqui e agora, antes da passagem pro outro lado.
O homem, ao contrário dos demais seres vivos, não rege sua vida apenas por instinto, pois para ele não basta apenas sobreviver, é preciso viver bem. Trata-se, contudo, de um sentimento relacionado mais com a mente do que com o corpo. É claro que temos que ter saúde, isto é, não sentir nenhum tipo de dor física que seja causada por uma lesão ou doença que nos provoque sofrimento. Mas isso é insuficiente para a ideia de felicidade que procuramos alcançar.
O ser humano faz graça, conta piada, se diverte vendo filmes de comédia, dá risadas com séries de TV, cai na gargalhada com alguma travessura da criançada, enfim, tenta fazer da vida algo menos sério.
Mas também é importante saber enfrentar seriamente a vida com toda a sua complexidade, afinal não faltam estorvos, sobram problemas e decisões cabais a ser tomadas, não sendo possível viver em plena alegria o tempo todo.
Ah, mas como é bom poder deleitar-se com as coisas boas da vida!
Ir ao estádio lotado, ver nosso time jogar bonito e ganhar daquele adversário que a gente tanto gosta de zoar. Juntar a galera no boteco, principalmente numa sexta-feira no fim do dia, após uma semana de labuta, podendo beber todas, pois no dia seguinte não teremos hora pra levantar da cama.
E que tal um espetáculo circense? A última vez que fui ao circo foi daquela famosa companhia canadense, com trupe do mundo inteiro e apresentações inesquecíveis. Soube que a empresa está ameaçada de falência, tendo entrado com pedido de recuperação judicial. Uma pena. Seus shows mesclam palhaços, acrobatas, músicos, com visual extremamente criativo, sempre com uma linha narrativa que amarra o espetáculo sob a lona do picadeiro.
Mas imagino que neste momento todos os circos brasileiros, ou quem sabe do mundo?, encontram-se paralisados, em dificuldades financeiras por causa da pandemia, fazendo com que seus palhaços estejam calados, tristes, sem trabalhar e, portanto, sem fazer ninguém rir...
A imagem que se tem do Paraíso é a de um lugar tranquilo onde não precisamos fazer nada, não há nenhum esforço de sobrevivência. Do lado de cá, ao contrário, temos que correr atrás do prejuízo, é preciso arregaçar as mangas, pegar no pesado, em outras palavras, precisamos trabalhar.
O trabalho nos engrandece, nos deixa mais fortes, orgulhosos, impõe desafios que ao serem superados traz uma agradável sensação de vitória, nos deixa felizes.
Felicidade é também o que se sente ao receber o salário, fruto do trabalho, e com ele poder comprar algo gostoso e saudável para comer, gastar parte do dinheiro em diversão com a família e os amigos, adquirir um objeto que tanto queremos e que pode facilitar nosso dia a dia, botar uma roupa nova para saciar a vaidade e assim se sentir visualmente bem.
Com quase 14 milhões de brasileiros desempregados, segundo dados divulgados há poucos dias pelo IBGE, o que se configura num recorde histórico, o Brasil é cada vez mais um país entristecido. Neste ponto é importante ter em conta que, para cada desempregado, há um círculo familiar em condições precárias. São pessoas sem alegria, sem nenhuma perspectiva de felicidade.
Pra eles, infelizmente, a única coisa que sobra é a esperança de encontrar a tal felicidade eterna no outro plano existencial...

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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