Com o confinamento por causa do coronavírus, centenas de milhares de estudantes em todo o mundo estão sem aulas, pois as escolas e universidades tiveram que suspender suas atividades. De modo geral, a suspensão se deu de modo quase imediato e inesperado para a maioria dos estudantes e professores, bem como para os pais dos alunos (principalmente dos que ainda estão no ensino infantil e fundamental) e, claro, para as instituições de ensino.
Em boa parte dos países desenvolvidos, a sala de aula já é toda equipada com soluções tecnológicas para a educação à distância (EAD) que permitem que o estudante aprenda em ambientes virtuais, sem que haja, no entanto, a exclusão presencial do professor como elemento indispensável e imprescindível para conduzir o aluno a um aprendizado compatível com o século XXI.
É claro que a realidade do Brasil é bastante diferente. Aqui, de modo recorrente, se veem reportagens sobre a péssima situação das escolas e as dificuldades por que passam alunos e professores. São condições adversas que faz com que os envolvidos se tornem pessoas dotadas de enorme resignação e persistência, pois não faltam motivos para desistir.
Sendo, porém, o sétimo país com maior desigualdade socioeconômica do mundo, segundo relatório da ONU, o Brasil também tem suas ilhas de excelência no gigantesco mar do ensino sucateado no qual todos navegam. Se o desejável fosse que todas, ou pelo menos a maioria das instituições de ensino, tivesse um ótimo nível de infraestrutura, não se pode, contudo, definir estratégicas pedagógicas ou planos de ensino generalistas e abrangentes tendo como parâmetros as melhores escolas e universidades do país, sob o risco da maior parte delas ficarem em defasagem ou até mesmo incapacitadas na implantação de tais programas de ensino.
Tampouco se deve impedir que aqueles que tenham condições de implantar ações pioneiras, baseadas em recursos tecnológicos avançados, o façam baseado numa justificativa de não aumentar a desigualdade.
Este tipo de extremismo, ou polarização, para usar outro termo bem da moda, ficou evidente justamente por conta da suspensão não planejada das aulas em função da pandemia.
O fato é que vivemos uma situação nova, e ainda será preciso avaliar quais as alternativas são as mais adequadas, tanto para o momento de crise, quanto depois que sairmos dela, afinal certamente estaremos pensando diferente daqui pra frente, pois não há como sermos os mesmos após o que se está vivendo agora.
No caso específico da educação, pode-se citar até o caso da Ufes, universidade na qual leciono, que, num primeiro momento, orientou que os professores realizassem o ensino à distância, por meio das diversas plataformas disponíveis e, logo depois, voltou atrás, determinando que nenhuma atividade deveria ser realizada virtualmente, haja vista a falta de treinamento específico dos corpos docente e discente, bem como da possibilidade (real em tempos de cotas sociais) de que vários alunos sequer tivessem como acessar o ambiente virtual durante a quarentena.
Obviamente que se trata da realidade de uma instituição pública, com estudantes de diversos níveis socioeconômicos, ao contrário das escolas e universidades particulares.
De qualquer modo, a tendência para a implantação gradual do ensino à distância é algo que não tem como ser evitado.
Por outro lado, há segmentos que, pelo menos até o momento, rechaçam veementemente a formação acadêmica que não seja de modo presencial. É o caso da arquitetura e urbanismo, onde instituições como Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo (ABEA) e a Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo (FeNEA), além do próprio órgão regulador da profissão, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), que manifestou-se da seguinte maneira: “a modalidade de educação a distância (EAD) não consegue formar profissionais com a qualidade e responsabilidade social requerida para o correto exercício da profissão e, neste sentido, tem definido não aceitar a inscrição profissional de estudantes formados nesta modalidade”.
Enquanto isso, diversas universidades em todo o mundo estão ampliando o uso de tais ferramentas, ao ponto do jornal "The Guardian", em dezembro de 2019, publicar um artigo intitulado “A Netflixzação da academia: será o fim das aulas presenciais?” (em tradução livre), e no qual a comunidade acadêmica já vê com receio tal tendência estratégica para o ensino.
Ou seja, a polêmica, ou melhor, o debate está só começando.