Amanhã, com um ano de atraso por causa da pandemia, começam as Olimpíadas de Tóquio 2020. Durante as próximas duas semanas, milhares de atletas, representando seus países, disputarão competições em diversas modalidades, buscando chegar ao topo, ganhar medalhas, culminando numa realização pessoal que envolve longo e intenso planejamento.
Mas mesmo aqueles que, porventura, não subam ao pódio, sairão vitoriosos, afinal, obter índices que os classifiquem para os jogos olímpicos já é algo formidável, principalmente se considerarmos os atletas brasileiros, haja vista a falta de estrutura local e apoio institucional que encontramos na maioria das modalidades esportivas praticadas no país.
Pra gente, as Olimpíadas podem ter vários significados, entre eles o simples entretenimento oferecido pela TV ou internet. Mas também pode ser o momento de torcermos em conjunto pelo Brasil, ficar emocionado ao ver um atleta ou equipe chorando de dor ou de felicidade, ficar arrepiado ao vermos a bandeira nacional ser hasteada.
A história nos mostra como a sociedade brasileira nunca foi unida. Havia, porém, uma falsa ideia de que nós, os brasileiros, gozávamos de uma alegre integração sociocultural, algo que veio abaixo nos últimos anos graças ao embate político que dividiu o país, causando-nos a impressão de que isso é um processo que está longe do fim e só tende a se agravar.
Agora sabemos que boa parcela do povo é preconceituosa, rancorosa, entre outros adjetivos, e, por incrível que pareça, até mesmo muitos dos que se dizem religiosos carregam consigo uma grande carga de ações e pensamentos pecaminosos em relação aos demais brasileiros.
No atual (?) racha social provocado pela polaridade política, um dos grupos se apossou daquilo que deveria ser de todos e não apenas desse grupo específico: a bandeira brasileira, e junto com ela, a camisa amarelinha sempre identificada como a seleção de futebol que tanto nos deu orgulho no passado.
Talvez não seja mesmo uma coincidência que a decadência da seleção canarinho, assim como a radical divergência política, não venha de agora. O 7 a 1 no Mineirão e a Copa América de los hermanos argentinos no Maracanã são capítulos de uma minissérie que ainda não acabou.
O esporte é mais do que entretenimento. É claro que todo tipo de diversão, principalmente aquelas que fazem com que o corpo se movimente, traz enormes benefícios. A endorfina liberada, que melhora nossa autoestima, e o sistema cardiovascular ativo são algumas das contribuições do esporte para a nossa saúde física e mental.
Se a atual seleção, com o craque cai-cai, nunca foi tão rejeitada, as Olimpíadas trarão oportunidades para nos regojizarmos, torcendo orgulhosamente pelos nossos atletas. Ali não caberá nenhuma reflexão sobre o contexto sociopolítico que tanto tem nos afligido recentemente e desanimado muitos de nós a colocar a camisa amarela ou balançar a bandeira nacional, com receio de sermos confundidos com os mesquinhos e truculentos de plantão.
É hora de torcermos para nossas equipes de vôlei, que tanto orgulho nos tem dado há décadas, tanto na quadra como na areia. Que o judô, a vela, ou mesmo as novas modalidades, como o skate e o surfe, em que o Brasil tem mandado bem nas últimas competições mundiais, saiam vitoriosos! E que bom seria vermos a galera da natação, do atletismo, da ginástica rítmica e da artística dando show durante suas competições!
Confesso que alguns esportes não me parecem tão visualmente atrativos. Talvez a emoção que procuramos em algumas modalidades venha da plasticidade dos movimentos, mas nem sempre essa é uma argumentação válida. Sabe-se que alguns esportes são mais populares em alguns países ou regiões do que em outros lugares, revelando que o aspecto cultural dos povos interfere na preferência de cada um.
De qualquer modo, tampouco teremos tempo livre para ficar assistindo todas as disputas em todas as modalidades que serão transmitidas ao público. Ah, esse é justamente um aspecto que fará com que estas Olímpiadas sejam únicas: a ausência presencial do público nas arquibancadas de arenas e estádios. Além disso, em razão do fuso horário, muitas competições serão em horários pouco convidativos para nós brasileiros.
Talvez seja mesmo uma oportunidade até para que se repensem este modelo de evento. Se as duas semanas que marcam todas as Olimpíadas são sensacionais para quem pode acompanhar as competições e a disputa do quadro de medalhas, é certo que do ponto de vista do envolvimento das cidades sedes e de seus governos nacionais, o impacto econômico tem se mostrado inviável na maioria das edições.
Sempre se cita o caso de Barcelona 1992 como um êxito que fugiu à regra, pois em quase todas as demais cidades, uma vez encerrado o evento, o que ficou foi um enorme imbróglio financeiro, cujo legado são equipamentos esportivos que acabaram abandonados, se deteriorando com o tempo. Como se viu aqui, com o Rio de Janeiro não foi diferente, tendo hoje estruturas subutilizadas ou já em ruínas e vivendo uma enorme crise econômica em função de uma expectativa pós jogos que não se concretizou.
De qualquer modo, isso pouco importa agora e durante os próximos dias, pois o que vale no momento é mesmo nossa torcida. Boa sorte aos nossos atletas!