Não tem sido nada fácil a vida do povo brasileiro nos últimos tempos. Ninguém poderia prever que a pandemia, que ainda está longe de acabar por aqui, seria tão dizimadora, tão devastadora... Talvez se tivéssemos um governo sério, responsável, justo e competente, a situação poderia ter sido ligeiramente melhor, poderíamos estar perto do que já está começando a acontecer nos EUA e no Reino Unido.
Junto com a morte de quase meio milhão de brasileiros – nenhum deles anônimos, pois para seus familiares eram todas pessoas com nome e sobrenome –, temos visto um esfacelamento intelectual de muitas instituições, sejam elas técnicas, científicas, fiscalizadoras e/ou educativas, cada uma com sua relevância específica e papel a cumprir em nossa sociedade.
Mas, acima de tudo, choca ver como a cultura está sendo arrasada. Neste caso, além da clara distorção ideológica do atual governo, incapaz de entender o valor da arte e da cultura na formação da identidade de um povo, estamos perdendo muitos dos nossos monumentos humanos, artistas grandiosos, todos insubstituíveis, e que ajudaram a edificar o patrimônio artístico-cultural brasileiro.
Nem todos morreram de Covid-19, mas no bojo de tantas mortes provocadas por ela, a sensação que fica é que sairemos disso tudo sem referências que nos façam entender a nossa própria realidade. O quadro é ainda mais preocupante quando não vemos surgir novas figuras capazes de preencher o enorme vazio cultural que se configura neste terrível momento.
Infelizmente, as significativas perdas se deram em todas as áreas da arte e da cultura brasileira, e entre elas está a arquitetura, meu ofício de formação, e que quero tratar agora nas linhas que seguem. Isso por que nesta semana perdemos o genial Paulo Mendes da Rocha.
Extrovertido para uns, controvertido para outros, ou as duas coisas juntas, Paulo Mendes é o último mestre de uma geração revolucionária, e que levou mundo afora a arquitetura brasileira que se colocou como inventiva, inovadora, moderna, tal como o país um dia sonhou ser. Capixaba de nascimento, que acabou se radicando em São Paulo e de lá se tornou um cidadão do mundo, Paulinho (como seus amigos próximos o chamavam, dado possivelmente à sua estatura) era um gigante ao palestrar para o público ou para defender suas ideias graficamente.
Sua obra que primeiro me marcou foi o MuBE – Museu Brasileiro de Escultura em São Paulo, uma idiossincrasia, afinal trata-se de uma arquitetura que criava um vazio para se fazer presente. Na mesma época em que conheci o MuBE, tive a grata oportunidade de ter contato pessoal com Paulo Mendes.
A história é meio longa, então para encurtá-la cabe mencionar uma ideia de construir um museu projetado por Paulo Mendes no manguezal de Vitória (sua cidade natal), junto à margem da Ufes (universidade da qual sou professor), contendo o acervo de Franz Krajcberg, o incrível artista polonês, naturalizado brasileiro, que fez da natureza a matéria prima para defender nosso meio ambiente.
Entretanto, um desentendimento institucional com Krajcberg acabou inviabilizando esta que seria uma obra, sem dúvida nenhuma, marcante sob vários aspectos: arquitetônico, artístico, ambiental e até mesmo turístico. Lembro-me do Paulo Mendes rabiscando energicamente suas ideias numa folha de papel, apresentando o conceito do projeto para um pequeno grupo do qual fazia parte meu amigo Kleber Frizzera.
Após o fracasso do museu dedicado ao acervo de Krajcberg, Paulo Mendes enveredou-se por um projeto ainda mais ambicioso, uma enorme expansão urbana sobre a baía de Vitória, entendendo que ali estava o futuro da Capital, marcada historicamente pela sua relação marítima-portuária.
Se antes Le Corbusier havia proposto uma megaestrutura avançando incólume sobre o território do Rio de Janeiro, perfurando seus morros, Paulo Mendes, por sua vez, contrapunha o mar como fronteira da capital capixaba. E se tal ideia ficou apenas no papel, mais tarde surge-lhe nova oportunidade: o Cais das Artes, obra que ele sonhou em ver um dia concluída, apoiando-se nas águas da baía, mirando o Convento da Penha, vigiando o vaivém dos navios entrando e saindo do porto e criando um novo lugar de encontro para a cidade, uma praça à beira-mar.
O destino me deu uma nova oportunidade de encontro com o eloquente Paulo Mendes, por ocasião do título de Doutor Honoris Causa que lhe foi concedido pela Ufes em março de 2020, um pouco antes do confinamento imposto pela pandemia. Pouco tempo antes, eu tinha publicado junto com os fotógrafos Gabriel Lordello e Tadeu Bianconi o livro “Expedição Capixaba, uma viagem pitoresca e fotográfica pelo Espírito Santo”. Acolhido pelos capixabas, afinal sou carioca, me senti honrado em poder presentear um extraordinário capixaba com um livro sobre este belo lugar.
Com tantas perdas, o que esperar do futuro da cultura brasileira? É difícil responder... Soubemos que o atual secretário especial da Cultura do governo federal esteve na Bienal de Veneza e ao chegar ao Pavilhão do Brasil, sequer conhecia a homenageada da atual edição deste importante evento mundial, a também arquiteta Lina Bo Bardi.
Mas não vamos perder a esperança de que os jovens de hoje possam em breve levantar, sacodir a poeira e dar a volta por cima.