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Epidemia

Por que ainda somos vencidos pelo mosquito da dengue?

Aparentemente não há nada que não possa ser superado, a não ser, é claro, nossa luta contra o mosquito

Publicado em 04 de Abril de 2024 às 01:50

Públicado em 

04 abr 2024 às 01:50
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

“Criar meu web site / Fazer minha home-page / Com quantos gigabytes / Se faz uma jangada / Um barco que veleje” (“Pela Internet”, Gilberto Gil)
Uns dias atrás estava circulando na internet uma imagem mostrando várias tecnologias do início do milênio e das quais hoje nem sequer lembramos, mesmo que elas tenham sido marcantes para quem fez uso delas na ocasião.
Talvez não dê mesmo para ter saudade do videocassete, mas é certo que era mesmo algo divertido ir às locadoras, escolher quais filmes veríamos no final de semana, e depois ir lá devolver, se possível apenas jogando a fita pelo buraco da vitrine.
Quando veio o DVD eu acabei me animando, comprando vários filmes e shows para poder ver quando quisesse. Foi uma época que deixou saudade, pois juntávamos vários amigos para assistirmos a algum filme escolhido em votação (algo que já não fazemos atualmente desde a chegada do streaming). De fato, é muito mais prático e com tantas opções que chega até a nos deixar confusos, perdidos...
E para ajudar ainda mais, agora temos as TVs grandes e de telas planas com imagens super nítidas e que substituíram aquelas pesadonas de tubo.
Enfim, não faltam exemplos da transformação recente das nossas vidas em função dos avanços tecnológicos. É certo que nem sempre tais inovações facilitam nosso dia a dia, basta ver a questão das infinitas senhas que temos que decorar.
E não basta, como dizem alguns, usar sempre a mesma senha, pois cada aplicativo, portal, empresa tem suas regras (só letras; letras e números; letras, números e caracteres especiais; maiúscula e minúscula; quatro dígitos; seis dígitos...; sem falar que muitas vezes somos obrigados a mudar de senhas contra nossa própria vontade).
De qualquer modo, vamos nos adaptando às novidades, aceitando as regras pensando que tudo isso vem em benefício da própria sociedade (bem, muitas vezes os primeiros a serem beneficiados são as empresas, buscando maximizar o lucro e diminuir as despesas).
Hoje nos comunicamos de modo mais rápido do que décadas atrás; usamos roupas mais confortáveis; fazemos uso de equipamentos que consomem menos energia; agendamos consultas médicas e exames remotamente; e assim por diante. Daí que a esta altura da história humana não dá pra duvidar de nada mais, ou seja, sabemos que novas tecnologias estão a caminho e que elas se incorporarão à vida das pessoas.
Aparentemente não há nada que não possa ser superado, a não ser, é claro, nossa luta contra o mosquito da dengue.
Mosquito Aedes aegypti,  transmissor da dengue
Mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue Crédito: Pixabay
Crianças e até mesmo muitos idosos já manejam com facilidade smartphones e tablets, coisa que jovens e adultos já consideram ubiquamente incorporado à vida atual, mas somos incapazes de descartar de modo correto o lixo, tapar caixas d’águas, dar destinação certa aos pneus usados, como se de fato estivéssemos convidando o mosquito a viver conosco. Vai ver a ideia é essa mesmo, fazer do nosso ambiente um lugar propício para as larvas.
Também não se pode desconsiderar o papel dos órgãos públicos, em especial das administrações municipais que demoraram para agir, pois só se lembram dos carros fumacê quando já é tarde demais.
A vacina é uma novidade, uma esperança para combater a epidemia, mas mesmo assim a adesão da população tem sido baixa, com número de doses aplicadas muito menor do esperado pelo Ministério da Saúde.
Mas se os cientistas desenvolveram a vacina, infelizmente ainda não foram capazes de achar um modo eficaz de combater um animalzinho como o mosquito (lembro de uns anos atrás quando anunciaram uma experiência com machos estéreis como tentativa de controle do Aedes aegypti, mas que certamente não deu certo, senão não estaríamos com a epidemia atual).
Como muitos historiadores já chamaram a atenção, o mundo contemporâneo se caracteriza mesmo por uma complexa contradição, algo que se mostra ainda mais evidente num país como o Brasil. Temos diversos exemplos de avanços sociais; somos uma potência cultural; temos empresas mundialmente competitivas e exemplares; possuímos uma enorme diversidade ambiental protegida por excelente legislação; ainda assim ocupamos indicadores baixíssimos quando comparados até mesmo com nossos vizinhos sul-americanos.
Se no ranking mundial de conectividade da UIT o Brasil encontra-se na 70º posição, por outro lado, no ranking do Proxyrack, o país está em 2º lugar quando se avalia o tempo que os usuários passam na internet. De qualquer modo, mesmo no índice de conectividade da UIT, estamos “acima da média dos países com rendimento médio alto”.
E como se vê, porém, nada disso é suficiente para sermos um povo com um mínimo de atitude diante de algo simples como é evitar deixar água parada em pneus ou garrafas vazias, manter lixeiras e caixas d´água tapadas, etc., etc.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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