Dois segmentos que normalmente passam impunes pelas crises econômicas: o de bebidas alcoólicas e o de cosméticos. A psicologia explica: estando estressados, os homens acabam bebendo mais, enquanto as mulheres preferem investir na própria beleza, maquiando-se. Trata-se de uma espécie de compensação que visa aliviar a pressão imposta pelos problemas causados pelo aperto no bolso.
Em ambos os casos, o que se compra é o conteúdo, seja para ser ingerido, no caso das bebidas, ou para ser aplicado, no caso de um esmalte ou batom. Desde que não vire algo compulsivo que pode comprometer a saúde tanto física quanto mental (principalmente no caso das bebidas), e aí ter efeito oposto ao de relaxamento que faz a pessoa se sentir melhor quando bebe algo ou se maquia, não há nada de errado no consumo de tais itens.
Lembro-me que até pouco tempo, as cervejas vendidas no Brasil eram quase todas em garrafas de 600ml na cor marrom e retornáveis. Ter cascos vazios era algo útil, assim como possuir algum engradado plástico no qual cabiam 24 daquelas garrafas. Quando tinha que comprar cervejas para um encontro com amigos, um churrasco no final de semana, levava-se o engradado cheio de garrafas vazias para comprar novas garrafas cheias, numa logística simples e ambientalmente eficiente.
Se hoje temos no mercado muito mais variedades, com várias marcas, sabores, tamanhos, formatos, é certo, porém, que retrocedemos em termos ambientais, pois as garrafas de vidro já não são retornáveis, sendo jogadas no lixo. Hoje, nos supermercados, encontramos as cervejas em garrafas de 600ml vendidas em caixas de papelão, enquanto que as chamadas long neck (com 330ml em média) encontram-se acondicionadas em plástico, de tal modo que tanto o papelão quanto o plástico normalmente vão parar no lixo.
É certo que muitas cidades vêm adotando a coleta seletiva, com a separação do lixo seco do lixo úmido, sendo o seco enviado para reciclagem e o úmido para os aterros sanitários. Mas no dia a dia, muita garrafa, papel, etc., vai para o lixo comum, contaminando o solo e os cursos d’água, trazendo grandes prejuízos para a natureza e, consequentemente, para o ser humano. Uma exceção, ainda no caso das cervejas, são as latas de alumínio, quase sempre recolhidas para que também sejam enviadas para reciclagem.
Já os esmaltes são mesmo perigosos, tanto para a saúde de quem o usa, mas principalmente para o meio ambiente. Tendo na sua composição solventes e resinas, nenhuma embalagem de esmalte poderia ser descartada diretamente no lixo, algo que é muito provável que ocorra de modo majoritário entre as pessoas que fazem uso dele. Ou alguém imagina-se esfregando aquele vidrinho de esmalte com afinco, usando removedor, cotonete e água, até deixá-lo completamente limpo antes de jogá-lo fora?
Adotado desde o final do século XX, o conceito da logística reversa visa promover o descarte correto dos resíduos, por meio de um processo cíclico que vai da coleta, reuso, reciclagem e tratamento dos produtos industrializados.
Se no passado os eletrodomésticos duravam muito tempo e ainda dava pra serem consertados caso algum defeito aparecesse, hoje, como bem sabemos, parecem produtos descartáveis. É muito difícil encontrar peças de reposição e, quando isso ocorre, na maioria das vezes o preço do serviço é quase o mesmo valor da compra de um produto novo. Também por isso, é cada vez mais raro encontrar quem saiba consertar algum eletrodoméstico.
Por meio da logística reversa, a compra de algum produto novo, uma televisão ou geladeira, por exemplo, estaria condicionada ao recolhimento do equipamento antigo por parte do setor industrial, que é quem seria responsável pela reciclagem ou descarte correto do aparelho.
Incluída na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a logística reversa, porém, é mais uma daquelas leis que não pegaram no Brasil, afinal basta considerarmos os casos das garrafas de cerveja que, bem antes da lei, adotavam a prática da reciclagem, e hoje, como se vê, isso já não é realizado pelos produtores de bebida, que preferem adquirir garrafas novas do que recolhê-las e reutilizá-las. É tudo uma questão econômica, pois na matemática da calculadora, o custo vai para a conta do consumidor, inclusive na hora de tratar da saúde por causa dos problemas do descarte errado dos produtos industrializados.
Por outro lado, qual o papel da sociedade civil neste processo de cuidar da natureza, ela que tanto nos dá? Para que não seja uma daquelas listas intermináveis, fiquemos com apenas três ações.
1) O descarte consciente dos produtos consumidos no dia a dia já representaria muita coisa, como é o caso da separação correta do lixo seco do úmido, e que seria o primeiro passo neste sentido. 2) Dar preferência para consumir daquelas empresas que adotam práticas sustentáveis também é algo de extrema importância. 3) Cobrar das administrações municipais e estaduais a aplicação efetiva da logística reversa por parte das empresas, inclusive criando um novo modelo de negócio que já vem sendo adotado em vários países, que veem no lixo um enorme potencial econômico.
Que o governo federal pouco se importa com a proteção do meio ambiente brasileiro, um dos maiores patrimônios do país, isso a gente já sabe há muito tempo. Então terá que sermos nós, o povo, quem deve tomar a iniciativa de cuidar da natureza para a segurança dos nossos filhos.