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Meio ambiente

Retratos da fartura e da miséria, lixões são desafio para o planeta

Talvez o aspecto principal para uma efetiva política de resíduos sólidos em prol do meio ambiente e da saúde pública seja a implantação da cultura do consumo consciente

Publicado em 09 de Dezembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

09 dez 2021 às 02:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

Foto de jovem com árvore de natal encontrada no lixão de Maranhão viraliza
Foto de jovem com árvore de natal encontrada no lixão de Maranhão viraliza Crédito: João Paulo Guimarães
“Quem me dera ao menos uma vez / Provar que quem tem mais do que precisa ter / Quase sempre se convence que não tem o bastante / Fala demais por não ter nada a dizer” (“Índios”, Renato Russo)
Se tem alguém que cuida do nosso meio ambiente, são os catadores de papéis que andam pelas ruas das nossas cidades, arrastando duramente e de modo solitário suas carroças cheias de embalagens descartadas que, em vez de acabarem em lixões, são recicladas.
Ainda que esteja bem aquém do que seria desejável quando pensamos no tema da sustentabilidade – termo, aliás, que vem se tornando cada vez mais desgastado, dado ao modo impreciso como muitas vezes vem sendo usado –, será cada vez mais necessário discutir com a sociedade a questão do descarte dos resíduos sólidos.
O Brasil já vem tentando avançar neste tema, tendo como principal marco a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) instituída em 2010.
No entanto, a realidade vem mostrando a dificuldade em colocar em ação os objetivos e metas desse plano, como é o caso da disposição correta dos rejeitos, que significaria o fim dos lixões que se espalham por todo o país, e que tinha como prazo o ano de 2014. Em 2020, foi prorrogado para 2024, ou seja, dez anos após a data anteriormente prevista.
Infelizmente muito pouco foi feito até agora, e assim o lixo ainda vem tendo destinação ambientalmente inadequada em boa parte do território brasileiro. A consequência imediata da presença dos lixões é a contaminação do solo, do ar e da água, ou seja, de tudo aquilo que é preciso para termos uma vida saudável.
Dias atrás, registros de um lixão no interior do Maranhão feitos pelo fotógrafo João Paulo Guimarães, mesmo tendo viralizado, pouco poderão fazer para mudar a realidade das pessoas que estão à espera de restos de comida para saciar a fome endêmica. Tão chocante quando essa dura realidade é ver que aquela gente precisa disputar espaço com os urubus que ali também vivem!
Por outro lado, as campanhas para mudança comportamental da parte privilegiada da população que pode consumir regularmente começam a ter algum efeito. Aos poucos, estamos sendo condicionados a fazer a separação do lixo em nossas casas, nos condomínios, nas cidades.
Ainda que às vezes haja alguma confusão entre lixo seco, úmido, comum, reciclável... é certo que já há quem leve a questão à sério. No dia a dia o mais frequente é a separação de embalagens de papel, vidro, plástico e alumínio, este, inclusive, sendo muito disputado por catadores de rua.
Hoje até mesmo entulhos de obra podem ser reciclados, gerando novos produtos capazes de serem utilizados novamente numa construção. Em Gaza, por exemplo, escombros da guerra que os palestinos e israelenses vêm travando há anos têm sido usados para fabricar tijolos para a reconstrução de casas.
Na verdade, a reciclagem é um dos pontos chave do PNRS, tendo como fundamento a logística reversa, e que vem a ser “um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento”. Em outras palavras, a logística reversa prevê que as empresas devam recolher os resíduos após o consumo de diversos produtos, sendo o exemplo mais evidente as embalagens.
Pensem no risco de uma embalagem de agrotóxico, óleo lubrificante ou até mesmo esmalte de unha sendo descartado de modo inadequado, isto é, indo pro lixo comum e, assim, contaminando o meio ambiente. E o mesmo vale para as baterias tão comuns no nosso dia a dia, como aquelas que usamos no controle remoto de diversos aparelhos domésticos; daí que é cada vez mais usual vermos pontos de coletas de pilhas e baterias em lugares públicos, como farmácias e supermercados.
Mas talvez o aspecto principal para uma efetiva política de resíduos sólidos em prol do meio ambiente e da saúde pública seja a implantação da cultura do consumo consciente. E essa é uma mudança que deve vir de cada pessoa, de cada família. E do mesmo modo, deve ser estendido às empresas, visando que elas também estabeleçam um padrão responsável de produção, com práticas sustentáveis em todas as etapas do ciclo econômico.
Tudo ao contrário do que se viu na Black Friday...
“Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais simples fosse visto / Como o mais importante / Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente”

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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