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Chuvas e alagamentos

Será que não é hora de rever o modo como nossas cidades lidam com a água?

No Brasil, com as intensas chuvas que fazem os córregos transbordarem, transformando ruas em verdadeiros canais, não há nada de agradável em ter que se locomover em barcos por causa de uma enchente. Talvez seja o momento de mudar isso

Publicado em 05 de Janeiro de 2023 às 00:05

Públicado em 

05 jan 2023 às 00:05
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

tbahia65@gmail.com

“Atlântida! / Reino perdido / De ouro e prata / Misteriosa cidade... Atlântida! / Terra prometida / Dos semideuses / Das sereias douradas... Eu sou o pescador / Que parte toda manhã / Em busca do tesouro / Perdido no fundo do mar...” (“Atlântida”, Rita Lee)
Começou no início de novembro, no Dia de Finados, e daí em diante não parou de cair água. Como é possível ter tanta água no céu? O fim de dezembro e o início de janeiro deram uma trégua.
Talvez o jeito seja mesmo admitirmos que daqui pra frente teremos que viver sob a água como fez o povo de Atlântida ou aqueles personagens de Pandora.
Deixando de lado a ficção, temos mesmo alguns exemplos de povos que souberam como lidar com a água, começando, é claro, pelos venezianos.
A cidade de Veneza, destino turístico admirável – que tendo tanto turista enchendo suas ruelas, praças e canais, já começa a querer definir um limite de visitantes em função do incômodo causado aos seus moradores genuínos – já foi uma poderosa cidade-estado que dominava o comércio de parte do mundo.
O Grande Canal de Veneza. Cidade cresceu entre pontes, aterros e canais
O Grande Canal de Veneza. Cidade cresceu entre pontes, aterros e canais Crédito: Gerhard Gellinger - Pixabay
Hoje, porém, é a sua intrínseca relação simbiótica com o mar (na verdade, Veneza encontra-se numa lagoa conectada com o mar Adriático) que nos deixa impressionados. A beleza da sua arquitetura só se faz mais potente justamente pelo fato de ela parecer flutuar sobre a água, ao contrário do que se vê em qualquer outra cidade que conhecemos.
E que maravilha é poder navegar por seus canais, seja nas famosas gôndolas, seja nos seus vaporettos.
Já no Brasil tropical, com as intensas chuvas que fazem os córregos transbordarem, levando água barrenta para as ruas urbanas, transformando-as em verdadeiros canais, não há nada de agradável em ter que se locomover em barcos por causa de uma enchente.
Mas será que não é o momento de começarmos a rever o modo como nossas cidades lidam com a água?
No Peru há o caso curioso das ilhas flutuantes do Lago Titicaca. Nelas vivem o povo uros. Construídas com plantas extraídas do próprio lago, as ilhas abrigam uma população estimada em 1.800 uros.
Peru
Ilhas flutuantes do Lago Titicaca, no Peru, onde vivem o povo uros Crédito: Pinterest/Reprodução
Mesmo não sendo tão conhecidas como a célebre Veneza, as ilhas do Lago Titicaca também são hoje um atrativo turístico famoso para quem viaja ao país andino. De qualquer modo, em ambos os casos, a decisão dos ancestrais dessas cidades partirem para viver harmonicamente com a água foi por questão estratégica e que lhes permitiram sobreviver ao longo do tempo.
Ou seja, enquanto hoje vemos a água que destrói, tanto em Veneza quanto no Lago Titicaca a água serviu de proteção, pois criou uma barreira de proteção contra os inimigos daqueles povos.
Outro exemplo de população que vive junto à água está entre nós: as palafitas da região amazônica.
Casas elevadas, suportadas por estacas, por causa de histórico de enchentes, existem em várias partes do planeta. No caso amazonense, as estacas são de madeira; o problema, porém, é o fato de que, na maioria das vezes, são construções precárias, de uma população de baixa renda e localizadas junto à margem de rios poluídos.
A coisa não tá fácil pra nossa gente brasileira... afinal a água não tá vindo só de cima, pois em alguns casos ela vem também de baixo, mas cada vez querendo ficar mais alta.
Temos vários casos de erosão causada pelo avanço do mar, como em Atafona no Rio de Janeiro ou mesmo em Manguinhos e Guarapari no Espírito Santo. Nesses e em todos os demais locais da nossa costa que vêm sofrendo com o avanço do mar, nenhuma medida adotada foi capaz de reverter o processo de destruição da obra humana.
Então, não é o caso de repetir a pergunta feita antes? Será que não é o momento de começarmos a rever o modo como nossas cidades lidam com a água? Ou, quem sabe, reconstruirmos o reino de Atlântida?

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovacao e mobilidade urbana tem destaque neste espaco

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